07 março 2015

Sobre a força das circunstâncias e sobre os anjos que nos ensinam a salvar a alma

Eu pedi pro Hélio Schwartsman se aliar à minha campanha contra os gostosões da ética, contra a turma que nunca colou numa prova, nunca, nunca, nunquinha desrespeitou as leis, nunca furou um sinal vermelho (nem às 4h da madruga, numa cidade pequena, pois acham que a sociedade viraria um caos se todos agissem daquele jeito). Pois bem, ontem, na Folha, Schwartsman atendeu ao meu pedido. Maravilha. Tenho um aliado poderoso, que gentilmente me poupa dessa ladainha católica moribunda. Ah, só um toque: eu sou fanático do Estado Anti-islâmico das Duas Perspectivas. Uma coisa é você tentar entender, querer explicar o modo como os seres humanos agem. Essa perspectiva não exclui o juízo moral. Ok? Outra notinha: a corrupção dos caras que agem investidos de autoridade política não é reflexo da minha corrupçãozinha de colar em provas, furar sinal vermelho e desrespeitar leis. Quando eu furo o sinal aqui na JK com Benjamin Constant, eu não estou puxando a corda que faz alguém pegar milhões da Petrobrás ou de qualquer outra merda que deveria estar, há milhões de anos, privatizada (incluindo o próprio Estado). 
Permitam-me uma palavra final: eu não acho bonito furar o sinal vermelho. Bah, é horrível. Vocês nem fazem ideia de como eu me sinto mal, meu estômago embrulha, eu passo noites em claro por ter cometido tamanha vilania. O problema é que eu não sou um ser alado.



Você roubaria se fosse senador?
Hélio Schwartsman

SÃO PAULO - O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, finalmente apresentou ao STF a lista dos políticos suspeitos de corrupção.

Se você, dileto leitor, tivesse sido eleito para um mandato parlamentar, chegasse ao Congresso e, depois de presenciar tudo o que acontece ali, recebesse uma proposta de uma grande construtora, a aceitaria?

De minha parte, gostaria de ter certeza que responderia com um sonoro "não", mas não estou tão seguro. Já li livros o suficiente para saber que, embora gostemos de equiparar honestidade a caráter, circunstâncias exercem papel bem mais determinante do que admitimos. Se todos a seu redor se comportam mal, não são desprezíveis as chances de que você venha a seguir-lhes os passos.

Já citei aqui experimentos clássicos que demonstraram esse efeito, como aquele em que o psicólogo Phil Zimbardo fez com que estudantes que encenavam o papel de guardas tratassem com sadismo seus colegas que interpretavam prisioneiros.

Há exemplos mais positivos. Em "Eichmann em Jerusalém", Hannah Arendt conta como os dinamarqueses se recusaram a participar da perseguição aos judeus. Eles simplesmente sabotavam o sistema de classificação racial. Era impossível distinguir judeus do restante da população. Os nazistas tentaram resolver a situação despachando militares alemães para cuidar das transferências, mas a estratégia fracassou porque os soldados germânicos adotavam o padrão moral dos dinamarqueses.

A ideia aqui é que buscamos no ambiente circundante âncoras morais para guiar nosso comportamento. Se essa hipótese é correta, a corrupção tem forte componente inercial. Rouba-se hoje porque se roubou no passado. Como não dá para despachar nossos políticos para a Dinamarca, só resta punir exemplarmente todos os envolvidos ao longo de uma meia dúzia de escândalos para tentar romper com a inércia e inaugurar um padrão moral mais saudável.
(Folha de São Paulo, 06 de março de 2015.

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