E os reis e os filósofos cagam, e as damas também.
(Montaigne)
Que importância a merda e o peido podem ter para a filosofia? Depende da filosofia. Para a de Montaigne - que é que mais me agrada dentre todas - merda e peido importam porque nos ensinam não apenas que onde quer que estejamos sentados, estaremos sempre sentados sobre nosso cú (isso foi Montaigne quem disse – mas onde ele disse isso? Não sei qual o número do ensaio; e se não foi ele, foda-se), bem, merda e o peido são importantes porque nos lembram que temos um corpo. E é por isso, por termos um corpo, que pensamos, sentimos, escrevemos. Sem esse papinho de “falo do alto da acrópole da clarificação conceitual impessoalíssima”. Você fala a partir do teu corpo, com o teu corpo. Se merda e peido dizem da tua humanidade animal, teus argumentos também dizem algo da tua humanidade animal. Falo isso, e peço perdão pelo uso de palavras tão dissonantes do nobre pudor de alguns senhores e senhoras, porque tenho visto muita desconsideração ao eu encarnado. É claro que estou cagando e andando para quem não se interessa por eus de carne e osso, para quem só se interessa por argumentos. Aqui apenas desabafo. Só exprimo. Eu tenho praticado a difícil arte de olhar nos olhos dos argumentadores e de prestar atenção ao tom e melodia de suas vozes, a como suas vozes enunciam solenes reflexões que saem de suas lindas boquinhas. Tenho pensando sobre como dormem. Dormem sozinhos? Fazem sexo com frequência? Sequer fazem? Essas são interrogações de minha nova disciplina, a psicologia especulativa aguinaldiana. Quando vou filosofar ao estilo de Montaigne, coloco uma bermuda e tiro a camiseta. Às vezes, fico pelado. Faço isso para me desembaraçar de um outro eu que brinca de seriedade acadêmica (sim, fui recentemente diagnosticado com transtorno de múltipla personalidade). Testo tudo que me chega com o bom parâmetro dos meus instintos e sentimentos (claro, apenas quando estou de bermuda e com o caderninho na mão, anotando tudo).* tem um post correlato legalzinho aqui.
4 comentários:
"[Minha fulô]
O corpo não faz drama
pra ele é só vontade
O drama..? é coisa do espírito
conflitos da intemperança
Mas, já viu um homem sem drama?
se é homem, um drama tem que tê
um mundo desdramatizado
é um desmundo para o homem.
Até o poeta
se é poeta
põe seus dramas pra dançar
assim, as palavras alcançam a alma dos homens
O corpo?
o corpo num tá nem aí"
Obvius Explicitus
Ótimo, Sr Giannattasio.
Ótimo post. Em relação a frase, foi o Montaigne que disse de fato, está no ensaio III.13 "Da Experiência", último ensaio do livro 3 e consequentemente da obra do filósofo francês.
Abraço.
Ivan Cleber.
Ouvi dizer que "o peido é o grito de liberdade da merda oprimida!"
Jorge P.
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