08 novembro 2014

Suicídio assistido: Brittany Maynard e Dom Carrasco

Suicídio assistido é 'absurdo' e 'condenável', diz Vaticano sobre morte de Brittany Maynard

RIO - O suicídio assistido é "absurdo" porque "a dignidade é uma coisa diferente de acabar com a própria vida", segundo Dom Carrasco de Paula, presidente da Pontifícia Academia para a Vida, órgão do Vaticano criado por João Paulo II. Ele comentou o caso da americana Brittany Maynard, de 29 anos, que decidiu morrer em 1º de Novembro para evitar o sofrimento de um câncer cerebral terminal.

POR O GLOBO COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS
04/11/2014 16:02


Dignidade, Dom Carrasco, implica liberdade, implica indivíduos poderem agir como senhores de si mesmos. Dignidade é, pois, plenamente compatível com suicídio. 

Dom Carrasco deve provavelmente ter colocado Deus no meio da parada. Vamos admitir que ele acredite que Deus é contra o suicídio, suicídio assistido e eutanásia.

Mas por que cargas d’água Deus seria contra o suicídio assistido? Isso é evidentemente diferente de considerar que a Bíblia, os padres e pastores sejam contra o suicídio assistido. Agora, eles não podem – e gostaria que alguém provasse o contrário – ter conhecimento sobre qual a posição de Deus a respeito do suicídio assistido. Eles ficam, claro, depositando fé cega no que leram e ouviram e tagarelando sobre coisas que ignoram. Mas o ponto é: você acredita ou não acredita. Simples. Eu não acredito. E daí? Como prossegue a discussão? Quem apela à razão pode tranquilamente prosseguir. Quem apela à fé, deve se recolher ao silêncio. Que tal um retiro num monastério? 

Eu quero saber qual o bom argumento contra o suicídio assistido.

Se para a igreja católica, o certo e o errado dependem de Deus, e não apenas da razão, então eles precisam – como parece ser o caso - de Deus para pensar na legitimidade ou ilegitimidade ética do suicídio assistido. Mas há necessidade de recorrer ao sagrado, ao divino para sabermos o que é moralmente correto? Estamos, como muitos devem perceber, diante do famoso dilema de Eutifron

Sócrates – Então, a piedade é amada pelos deuses, porque é piedade, ou é piedade, porque é amada pelos deuses?

Se o certo e o errado dependem de Deus, então como sabemos que o que Deus quer é bom? Somente ouvindo Deus, ou confiando num profeta, que proclame que fazer A é certo e ponto final. Se matar o filho inocente, oferecendo-o como sacrifício, é a vontade divina, que se dane a razão. Abraão que o diga. O que Deus quer é sempre moralmente certo. Se no meio do caminho, Deus quiser mudar de ideia, então não é mais correto sacrificar o filho. Se Deus continuar com seu desejo de ter uma criança incinerada em sua homenagem, então será certo fazer arder a criancinha. Deus decide tudo. Férias para a razão, exílio para esse estorvo. Ela vai viver como uma refugiada política em algum canto do universo, mas em obsequioso silêncio sobre questões morais.

Eu, porém, acredito que a razão tem muito a dizer sobre o certo e o errado. E penso que ela considera errado obrigar alguém a continuar vivendo, digo “obrigar alguém”, isto é, impor a vida a quem não mais deseja viver. Isso sim é desprezar a dignidade das pessoas.

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