14 agosto 2014

Da tentação de mandar indiretas pelo Facebook e Blog



Digo tentação, mas não penso que seja só uma tentação no meu caso. Eu já sucumbi a essa tentação várias vezes. Portanto, não sou apenas tentado, sou vítima. Ora, ora, ora, vítima ... Sou eu o mensageiro das indiretas, sou eu o autor das frases e pensamentos para destinatários colocados de modo aparentemente oblíquo. Sem essa de vítima então. 

Por que fazemos isso? Por que fiz isso e, às vezes (não, seguidamente) penso em fazer novamente? Por que não ser direto? Enviar um e-mail, chamar para conversar? É que ser direto é ser sem imaginação, ser raso na fantasia e no jogo. Contudo, há muita coisa a ser dita contra as indiretas, ou contra certo tipo de indiretas.

A vantagem de mandar indiretas pelo Facebook e blog é que é a alternativa que se abre de você ter vários destinatários possíveis e querer chamar atenção de muitos deles e não apenas de um. A grande desvantagem é que se passa, no mais das vezes, um atestado de covardia (e como se sabe há milênios, covardia não é apenas assunto de homens).

Às vezes, queremos dizer:
- Por que você não se toca e não desaparece da minha frente?
- Você não tem vergonha de escrever o que escreveu?
- Você não percebe quanta incoerência há entre tua pose pública e tuas adoráveis palavrinhas?
- Por que você simplesmente não se toca?
A versão indireta:
- Tem gente que não se toca e não percebe a necessidade urgente de desaparecer.
- Tem gente que não tem vergonha de escrever o que escreve.
- Tem gente que não percebe quanta incoerência há entre a pose pública que faz e as adoráveis palavrinhas que escreve.
- Tem gente que não se toca mesmo!


Essas frases parecem o cacoete da indireta.

Há indiretas mais bonitas, uma música, uma poesia (que algumas pobres almas não percebem ou demoram a perceber – outra indireta). E eu ia dizer que as mais bonitas são as minhas, mas já seria uma indireta sobre indiretas.

Indiretas envolvem inversão do anonimato. Geralmente pensamos o anonimato a partir do remetente, de sua obscuridade, de sua não autoria. Afinal, o anônimo é um desconhecido, uma nulidade. 

Vejam, ficaria parecido com isso.


Envelope das indiretas
De: Aguinaldo
Para: você
Endereço: aleatório

De: Aguinaldo
Para: vocês (duas)
Endereço: aleatório 
De: Aguinaldo
Para: vocês (três)
Endereço: aleatório  
De: Aguinaldo
Para: vocês 55 imbecis 
Endereço: aleatório


É legal isso que escrevi. Colocar o número ao lado dá uma ideia dos destinatários. E o ponto nas indiretas é sempre a indefinição do destinatário. É também uma brincadeira (percebeste que é contigo? Percebeste que dessa vez não é contigo?).

Eficácia da indireta: sempre está em jogo a qualidade do remetente. Ele, de alguma forma, está preocupado com ela (ele), com elas (eles), com os 55 imbecis. Sim, mas não esqueçamos que há graus de preocupação e ninguém é tão sublime e divino que não dê alguma atençãozinha às ovelhas mesmo sendo o leão mais gostoso da floresta. Até o último ridículo da fila merece uma indireta às vezes. Ele também merece sua cota como vítima potencial de sacanagem. Não mudará o fato de ele ser o último da fila.

E por que não logo diretas? Diretas-indiretas.

De novo sobre lado negativo das indiretas: você apenas quer falar do que você está lendo no momento. Por exemplo, suponha que você esteja sorvendo, com o máximo prazer, cada página da deliciosa história do amor (Amor, uma história, de Simon May. Zahar, 2012). E pensa: se colocar aqui essa passagem que achei tão interessante tem alguém que vai achar que só fiz isso por causa da sua efêmera existência (ela é o centro do universo, e é  verdade, é mesmo o centro do meu universo, hahahha). Acontece que aquela passagem não era especialmente para ela. Talvez pudesse ser, em outro momento, talvez quando estivesse ouvindo aquela música do Elvis Presley. Mas estava tentando dar uma de filósofo do amor, como May faz brilhantemente. Estava dando um toque aos meus leitores, aos que me adoram e sempre aprecem por aqui. Ela não era, pois, o alvo, porque não havia um alvo determinado. Estava atirando a esmo. A flecha foi lançada para o céu e entrou em órbita terrestre. Então, para (pára) de pensar que tudo tem a ver contigo (ah, as melhores partes sim, mas não todas as coisas, não seja tão fominha). Você acha que é contigo? Ah, e se existir mesmo esse negócio de leitor imaginário? Já pensou?

Dia desses, eu comentava com um querido amigo meu no Canhoto. Meu caro K*, antes de chegar aqui – para almoçarmos (quem conhece o Canhoto vai entender a piada) - eu estava no mercado Shangri-lá, sentado naquele boteco do canto, tomando uma Heineken e comendo um bolinho de carne, um dos melhores da cidade. E veja só o que me aconteceu: fiquei completamente emocionado por ter sido confrontado com uma coisa fantástica: um casal de namorados (e nem falo da diferença de idade entre o casal, para não se pensar que já é uma indireta - e não é, droga, uma indireta, é que isso também era bonito), bem esse casal estampava rostos luminosos, não eram beldades, mas havia vida em suas faces, seus olhares eram cheios de cumplicidade,  estavam ostensivamente demonstrando que estarem juntos era uma grande curtição. Os dois eram carinhosos um com o outro, sem prodigalizar demonstrações públicas de afeto, mas sem fazer a economia da meiguice dos tímidos, dos miseráveis que se amam com acanhamento. Olha, eu fiquei maravilhado com a cena. Pensei: que coisa mais linda! Que coisa linda é a vida! Que coisa linda é o amor! E meu coração, geralmente esmagado pelas contingências amargas da vida, ficou triunfal, se inflou de esperanças na humanidade, a querida humanidade. Quando cheguei ao Canhoto, o primeiro assunto foi o relato dessa história ao meu amigo. Disse, “olha vou contar um espetáculo singelo que meu ser teve o sagrado privilégio de assistir”. Ele percebeu que eu estava ofegante de emoção e disse: “Aguinaldo, o que houve?” Eu continuava: “singelo, tocante, .....” E depois de relatar disse: “olha, meu caro K*, fiquei com vontade louca e ridícula de naquele instante fazer menção no FB sobre a beleza do espetáculo. Queria dizer ao mundo: viva o amor! A beleza de ver duas pessoas que se amam de mãos dadas e cheias de carinho uma com a outra. De ver um casal de namorados, pura poesia visual”. Ele: “Deixe-me ver o FB, você colocou não é?” E eu: “Não. Na hora fiquei tentado, fiquei com vontade colocar no FB, sim, a beleza do amor nas mãos carinhosamente enlaçadas de um casal de namorados”. E ele: “não colocou, seu fêla?” eu: “Não, tem gente que iria ler e pensar que era uma msg cifrada, escrita por alguém que passa dia e noite pensando nela. Já te falei que ela pensa ser o centro do universo” (ah, e como disse, ela é de fato o centro do meu universo). Ele: “Aguinaldo, deixa de ser idiota. Ela que se foda! Escreva no FB o que você tem vontade”.

Ora, escrever o que se tem vontade ...  Já vi que não dá.

A gente escreve pensando em que vai nos ler, nem que seja uma pessoazinha. Geralmente, é mesmo apenas uma pessoazinha que interessa. Mas não dá pra escrever simplesmente o que temos vontade (por exemplo, o desejo de chutar o balde em público). E temos pudor, respeitamos, no fim das contas, o outro. É legal, sim, deveras legal dizer o que se pensa livremente, sem os entraves da admoestação social interiorizada, mas precisaríamos de leitores que entendessem tudo como ambiguidades e provocaçõezinhas inofensivas, como jogo, diversão e sentissem tudo com leveza. Mas isso é querer demais de si mesmo e dos outros.  E um dos meus princípios mais sacrossantos é nunca querer que as pessoas sejam melhores do que são, ou ainda não tão menores humanamente do que já são. O mundo é essa merda mesmo e eu gosto dele do que jeito que ele é. 

Bem, então vamos continuar escrevendo. Continuaremos registrando nossos nobres e sublimes pensamentos. Escrever para quem? Escrever por quê? Para quê? Sempre dando indiretas. Não há como resistir. Eu tento, mas não resisto.



3 comentários:

Greice Kelly disse...

Querido,

espero que o receio com as "indiretas" não o impeça de continuar compartilhando tudo, absolutamente tudo, que pensa e sente sobre o amor. É sempre bom ler sobre o amor e todas as suas contribuições são deveras pertinentes para mim.

Abraço!

Aguinaldo Pavão disse...

Querida Greice.
Sim, prometo dizer tudo, absolutamente tudo (nem que seja inbox, hahhah).
Abraço amoroso.

Rogério Rocha disse...

Ótimo texto! Gostei muito. Parabéns! Sempre que der passarei a acompanhar as postagens. Também tenho um blog. Se puder, dê uma olhadela: http://rogeriohenriquerocha.blogspot.com.br/