11 agosto 2014

Atrás das linhas inimigas de meu amor

Foi um verdadeiro presente. Obrigado pelo comentário, Renata Peruzzo.


um garoto
escrevendo seus primeiros versos
e eu os costurando numa gravata
de seu pai recém-falecido
e depois a enterrando no jardim
vejo um garoto correndo com seu cão fiel
em algum lugar da primavera canadense
até o dia em que ele sumiu
vejo essa garoto procurando o seu cão por semanas
até encontrar no meio do inverno
apenas uma carcaça
de seu querido animal de estimação
vejo esse garoto crescendo
untando corpo e mente com os ritos judaicos
estudando os livros sagrados com seu avô
vejo esse garoto aos dez,
paralisado ao ver pela primeira vez as fotos do campo de concentração 1945

vejo esse garoto um tempo depois
untando seu corpo novamente
agora, para adentrar o templo do amor
e desvendar toda capacidade de beleza
que mora na forma de um olhar
e andar de uma mulher,
e eu o vejo forjando um novo evangelho
em cada rosto
em cada boca que sangrava um beijo
nas noites nevadas dos bares de Montreal

vejo um poeta à procura de outros céus
testemunhando toda a capacidade
de beleza e dor de uma mulher,
à procura de ser fixado como uma galáxia
em seus céus delicados e secretos,
vejo ele desperdiçando seu sangue
em amores inúteis
e ainda assim avançando
movendo seu catálogo de renúncias
em direção a esse amor
que alguém sonhou para ele
entre as gaivotas,

vejo o jovem Cohen
atravessando nações
mas escolhendo um só país
o país da solidão
dividido pelo amor

vejo esse poeta
presenciando a infelicidade dos professores
que põem a poesia num altar,
observando a recusa de seus alunos em sofrer,
eu o vejo aportado em Hidra,
examinando as gaivotas se contorcendo,
intimando os lábios ocultos
para testemunha em suas páginas,
até que ele se despojasse de tudo
esgarçando palavras amores e vidas,
tudo para poder atuar
atrás das linhas inimigas de seu amor

vejo esse poeta deixando Kerenski
e a Rainha Vitória na plateia
e subindo ao palco para cantar pela primeira vez
um poema seu em público
-era um poema que falava
de uma estranha Suzanne
que o captava em seus movimentos de onda

vejo esse poeta fazendo música de seus versos
cultivando como pedra raiz e gaivota
a linguagem de uma dor delicada
eu o vejo comparando mitologias
em seu primeiro livro de 1956
estudando fragrâncias que descem das montanhas
eu o vejo colhendo flores para exaurir,
flores para um catálogo do ardor
flores para o diário das neves
que a pele escreve
flores para um estranho florir de seus lábios
e então,
Flores para Hitler
e eu o vejo se armando de gaivotas e oceanos
contra todos os Parasitas do céu
pois me desculpem, companheiros
mas quem ainda não sabe
nós estamos em guerra!
e não podemos deixar em versos
nada que possa ser útil ao inimigo,

vejo este poeta Cohen
presenciando a falência de seus versos
diante da capacidade total de beleza
de uma mulher
eu o vejo testemunhando
o fim de sua vida na arte
o fim de sua carreira como sedutor
desejando apenas que uma música
o dançasse até o fim do amor

Caro Leonard
vejo nesses poemas
os seus dicionários de perdas e permanências
espero que você não se importe,
mas são dicionários
que agora eu trago comigo
não para que fiquem nessas páginas,
mas para que eles  se levantem e floresçam
em outros olhos

para que possam atuar
atrás da linhas inimigas de meu amor

Fernando Koproski

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