Concordar com a opinião do outro é honrar, pois é sinal de aprovação de seu julgamento e sabedoria. Discordar é desonrar e acusar o outro de erro, e, se a discordância atinge muitas coisas, de insensatez. (Hobbes. Leviatã)Hobbes está certo. Quando alguém discorda de mim e diz "isso não é nada pessoal, apenas não consigo ver as coisas como você vê", ela está adornando com uma retórica pegajosa a reprovação que faz do meu discernimento. Ela está me diminuindo. Às vezes, quando a discordância é generalizada, ela está me chamando de desatinado. Mas isso nem sempre é tão grave. Amigos fazem isso comigo e eu consigo sobreviver. Outros, quando divergem de mim, me deixam espumando de raiva. Outros, quando reconheço neles a estupidez da razão evocada para objetar a ideia que defendo, provocam em mim grande prazer. Penso: grande imbecil, como pode ser tão tonto!
Essa passagem do Leviatã me faz pensar no tema da amizade. É possível que uma amizade seja preservada, cultivada, apreciada se discordamos do nosso amigo na maioria das vezes, ou nas coisas mais importantes? Difícil. Mas talvez nem tanto. Somos molengas em nossas relações. Às vezes preferimos, inclusive, nem discutir coisas sérias com nossos amigos. Entregamo-nos ao hedonismo fácil de uma companhia agradável para falarmos sobre futebol, mulheres e política (mas política de manchete de jornal, de concordâncias nas trivialidades). Ou para falarmos sobre roupas e fofocarmos em geral. Desonramos e apreciamos. Ó! Apreciamos a gotinha que pinga em nossa língua e nos faz esquecer que somos criancinhas carentes, suplicando a atenção de alguém, mesmo que esse alguém apenas nos ouça e não tenha opinião sensata sobre quase nada.
Mas eu quero meu Montaigne. Eu quero briga, eu quero tensão, virilidade, ironia, sarcasmo. Eu quero, eu desejo. Saiam da minha frente seus molengas. Ó, ó .... que ridículo .... Mas o que fazer quando temos desejos ridículos e somos incorrigivelmente ridículos? O que fazer?
Um comentário:
Olá Professor, meu nome é Mário Luiz dos Santos, sou estudante de teologia no Claretiano-SP. Gostei muito de seu texto, traduz a realidade que evitamos; cá pra nós, " Prefiro um pouquinho de caos, a paz eterna".
Um grande e sincero abraço.
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