Amizade
Há tempos leio os Ensaios de Montaigne. Abro episodicamente um dos dois volumes da coleção “Os Pensadores” (Nova Cultural, 1987) e leio algum capítulo. Talvez esteja a seguir o seu exemplo:
Bem, o que desejo aqui é deixar a belíssima passagem em que Montaigne fala sobre o rompimento e as conseqüências do rompimento da amizade. Numa amizade como a que pensa Montaigne, somente a morte provoca rompimento. (Aristóteles mesmo se vê envolto em maus lençóis quando tenta explicar o rompimento da amizade entre os bons - raro é claro).
Há tempos leio os Ensaios de Montaigne. Abro episodicamente um dos dois volumes da coleção “Os Pensadores” (Nova Cultural, 1987) e leio algum capítulo. Talvez esteja a seguir o seu exemplo:
Em casa, passo muito tempo na biblioteca, [...]. Ora folheio um livro, ora outro, sem ordem, ao acaso. Ora sonho, ora tomo notas ou dito, passeando, os devaneios que aqui se registram.Dia desses, pensando nos livros 8 e 9 da Ética a Nicômaco - que, agraciado pela sorte, terei a oportunidade de discutir com os alunos do 3º ano- fui invadido pela lembrança da famosa passagem:
(Ensaios III,3)
Se insistirem para que eu diga por que o amava, sinto que o não saberia expressar senão respondendo: porque era ele; porque era eu. (Ensaios I,28).Assim assaltado, voltei correndo ao capitulo 28 do livro I. Nossa! Como faz diferença voltar a ler certas coisas depois de um bom tempo, depois de aprendizagens diversas. Montaigne exalta a amizade excepcional, cuja raridade não permite encontrá-la a não ser uma vez a cada três séculos (um justificado exagero retórico). Já Aristóteles, comedido, embora concorde com a raridade da amizade verdadeira, não chega a tanto. Acho que mesmo se dispusesse desse modelo que dispõe Montaigne (a amizade entre ele e La Boétie) não diria o que este disse. Aristóteles explica melhor para mim as coisas que desejo entender sobre a amizade. Mas Montaigne desliza firme e levemente sua pena diretamente em minha face, inicialmente tocando-a com carinho e, depois, usa a ponta de sua pena como se fosse uma faca a fim de rasgar fundo meu peito. Aristóteles explica mais, bem entendido, visto que descompacta mais o significado da amizade. Há, por certo, divergências entre os autores. Menciono uma que me chama mais a atenção no momento: a aproximação que tendo a fazer, inspirado em Aristóteles, entre “amor-eros” e “amor-philia” não encontra amparo em Montaigne (eu preciso torcer, e até talvez distorcer, mais Montaigne que Aristóteles para conseguir o que almejo).
Bem, o que desejo aqui é deixar a belíssima passagem em que Montaigne fala sobre o rompimento e as conseqüências do rompimento da amizade. Numa amizade como a que pensa Montaigne, somente a morte provoca rompimento. (Aristóteles mesmo se vê envolto em maus lençóis quando tenta explicar o rompimento da amizade entre os bons - raro é claro).
Dizia Menandro que podia estimar-se feliz quem tivesse encontrado a sombra de um amigo. E tinha por certo razão de o dizer mesmo que houvesse conhecido tal felicidade. Se, com efeito, comparo o resto da minha vida, a qual graças a Deus me foi suave e fácil, isenta de aflições penosas (à exceção da perda de meu amigo), cheia de tranqüilidade de espírito, tendo me contentado com as vantagens que devo à natureza e a minha condição social sem procurar outras; se comparo minha vida inteira aos quatro anos durante os quais me foi dado gozar a companhia tão amena de La Boétie, ela não passa de fumaça. É uma noite escura e aborrecida. Desde o dia em que o perdi, “dia infeliz, mas que honrarei sempre, porquanto tal foi a vontade dos Deuses”, não faço senão me arrastar melancolicamente. Os próprios prazeres que se me oferecem, em vez de me consolar ampliam a tristeza que sinto da perda, pois éramos de metade em tudo e parece, hoje, que lhe sonego a sua parte: “assim decidi não mais participar de nenhum prazer, agora que já não tenho aquele com quem tudo dividia”.Se você não se emocionou, chame sem hesitar um segundo o SAMU. Diga: descobri que não tenho coração.
Já me acostumara tão bem a ser sempre dois que me parece não ser mais senão meio: “como uma morte prematura roubou-me a melhor parte da minha alma, que vou fazer com a outra? Um só e mesmo dia causou a perda de ambos”. Nada fazia, nem um só pensamento tinha que não lhe percebesse a ausência, como certamente, em caso semelhante, eu lhe faltaria. Porque se me ultrapassava em méritos de toda espécie e em virtude, também me sobreexcedia nos deveres da amizade: “Por que se envergonhar? Por que deixar de chorar tão querida alma?” “Ó irmão, como sou infeliz por te haver perdido! Contigo pereceram de um só golpe todas as nossas alegrias e esse encanto que tua suave amizade deitava em minha vida. Ao morrer, irmão, despedaçaste toda a minha felicidade; minha alma desceu ao túmulo com a tua. Desde que não és mais, disse adeus ao estudo e a todas as coisas da inteligência”. “Não poderei mais falar-te e ouvir-te? Nunca mais te verei, então, ó irmão mais caro do que a vida! Ah, ao menos amar-te-ei sempre”.
[citações de Horácio, Virgílio, Terêncio e Catulo]
(Ensaios I, 28)

6 comentários:
Francielly Venancio Bem, eu tenho um coração! Me emocionei muito com o texto.
Silvania Chaves Ai que lindo "agraciado pela sorte"...
Luciana Bertini Fazia tempo que eu nao lia uma coisa tao bonita. Ja' voltei la' varias vezes pra reler.
Aguinaldo Pavão Luciana, como é lindo, não? Sabe, eu também fico relendo várias e várias vezes aquilo.
Ontem estava mexendo no baú dos tesouros e encontrei um livro que ganhei da minha madrinha quando fiz 8 anos, cujo título é "Você é meu amigo". Num trecho deste livro diz que: "Desde então, quanto amor, fortaleza, esperança você despertou em mim! Descobri que na amizade o homem se restitui a si mesmo. Com você deixei de representar e comecei a ser". A relação de amizade é, talvez, a única em que podemos ser nós mesmos, sem máscaras, sem medo de errar, sem pretensão de parecer super-herói. Ao amigo (me refiro ao amigo descrito por Montaigne) não interessa o carro, o saldo da conta bancária ou a marca do sapato, importa simplesmente a pessoa do outro, e por isso é tão raro de encontrar. Somente quem viveu uma amizade como aquela sabe quão dolorosa é a perda do seu amigo. Lindo tema, lindo texto.
Sei que você gosta de distinguir o sentimental do piegas, mas as coisas que Montaigne diz, o modo como termina a citação, me fizeram chorar de verdade. Desculpe a pieguice. Se achar melhor, não publique só queria que soubesse.
Gilvana.
Obrigado pelo comentário.
Em linhas gerais concordo contigo. Apenas não separo tão rapidamente o que uma pessoa é do que uma pessoa tem. Escrevi sobre isso aqui [http://agguinaldopavao.blogspot.com/2008/04/ser-e-ter.html].
Iara.
Fique à vontade para comentar como quiser. Isso aqui é apenas um blog. Sei de outra pessoa que também chorou. O próprio blog anda choroso há algum tempo. Ainda bem que chorar não nos impede de pensarmos. Mas é uma pena que chorar e pensar sejam insuficientes para a ação.
Como vocês devem imaginar, eu recebo eventualmente comentários anônimos. Geralmente, não são muito amistosos. Mas tem um camaradinha que acha que tem “um ponto” comigo. Olha, se que eu quisesse eu até me preocuparia em saber teu nome, olhar tua foto, essas coisas. Mas não me interessa. Eu saberia, se tivesse curiosidade pela tua pessoa, o teu e-mail e o teu endereço. Mas você não conta. Existe, é um fato. Mas é coadjuvante. Esse ponto em comum não existe. O meu ponto sempre foi outro. Só escrevo isso aqui para que também outra(s) pessoa(s) saiba(m). Um conselho: confie mais em você. E um pedido humanitário: não escreva comentários no meu blog. E nem pense também em deixar de ser anônimo. No fundo, você sempre será isso para mim: um anônimo. Bah, que papo chato, hein. Perdoem-me, meus queridos leitores.
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