Sei que atrocidade vou cometer, mas a cólera em mim é mais forte que a razão.(Medéia)
Antes de tudo, deixem-me esclarecer que entendo a palavra desculpa no titulo como subterfúgio (manobra ou pretexto para evitar dificuldades; pretexto, evasiva – cf. o glorioso Houaiss). E por paixão entendo todas as nossas inclinações em geral. (O parafuso está um pouco frouxo, mas serve para esse post).
Não, Medéia, não! Sem essa. (E eu te admiro tanto ...). Foste tu a protagonista, a autora dos crimes. E foi a tua vontade, a tua razão, não a tua paixão, não a cólera, a causa dos males que praticaste. Tu não foste, Medéia, vítima do teu “indomável orgulho”, do teu ciúme. Não, não mesmo.
Nós, sem poesia, frequentemente ouvimos e dizemos: “Desculpe-me, agi por impulso”. “Perdoa-me, agi movido pelas minhas inclinações”. E blábláblá. Subterfúgios que querem nos isentar de responsabilidade. Não fui “eu” quem agi. Foram meus impulsos. Não fui eu quem foi agressivo, indiferente, mesquinho, egoísta. Não, não, foram minhas inclinações. Ora, ora, ora.
Mas a verdade é que ninguém age, a rigor, por impulso. Ninguém age, a rigor, por inclinações. Agimos por escolhas. Agimos escolhendo seguir nossos impulsos. Agimos querendo seguir nossas inclinações. Hume está errado. (E falo de ações, não de meros comportamentos). São nossas escolhas que nos fazem agir em consonância com nossas inclinações e não as nossas próprias inclinações (que diretamente nos fariam agir; não, pois são apenas em geral condições necessárias, nunca condições suficientes). Kant está certo. Ou somos animais, animais mesmo, no sentido popular do termo (animais irracionais), seres providos apenas de arbítrio bruto? Não somos. (É impressionante como a ausência da simples e inocente distinção entre condição necessária e condição suficiente faz falta na vida mental das pessoas).
Poesia é uma coisa. Ação, moralidade, o bem e o mal (que existem, visto que há escolhas) são outras coisas. Não somos autômatos passionais. Mas, para alguns, é tão consolador ver-se a si mesmo como presa indefesa das garras impetuosas das paixões. Oh, quão devastador pode ser o autoengano. Também há liberdade em querer ser escravo das paixões. Afinal, somente querendo alguém pode ser escravo das paixões. Logo, ninguém é escravo das paixões (Bah, preciso evitar essa “dialética”). Adoramos falar: “eu não resisti”. Bobagem, conversa furada. O que aconteceu foi o seguinte, eu vou contar pra vocês. Eu escolhi não resistir. Foi isso. Essa verdade me foi revelada num sonho assustador que tive no início da madrugada de hoje. Será que estava sonhando? Mas eu já não sabia?
© Aguinaldo Pavão – Londrina – PR - 2012

6 comentários:
Uma legião de leitores conclama-me a descompactar o post. Todos, em uníssono, declaram: “excelente, magnífico”. Falsos. Se fosse tudo isso, eles não precisariam ficar me incitando a esclarecê-lo nos seus pontos mais básicos. Gostei de um mail que recebi (que na verdade nunca existiu, que nunca foi recebido). Esse inexistente mail dizia:
Não agimos sempre por escolha. Agimos por hábito, agimos espontaneamente deixando nossos sentimentos nos guiarem. Ademais, há coisas irresistíveis na vida. Triste a existência de quem a nada sucumbe.
Eu preciso, de fato, me explicar. Entendo que escolher significa agir dispondo do poder de agir de modo diferente. Não concebo ação (por escolha) como um tipo de evento em que o camaradinha fica sempre pensando, antes de agir, sobre qual curso de ação deve tomar. Agimos espontaneamente, sim. Só que fazermos isso por escolha. Certamente, a vida reclama o desligamento dos botões a fim de que seus sabores possam ser melhor sorvidos. Se estou apaixonado por alguém, ou simplesmente (e melhor) se acalento em meu coração amor por alguém, é de se supor que eu me deixe levar pela brisa que empurra deliciosamente a vela do barco. Mas vejam, eu escolho. Com efeito, dizemos: “deixo-me levar” (escolho sucumbir). Já aí temos indícios da verdade na sabedoria da linguagem natural. Não sou levado. Sou eu, Euzinho da Silva, que me deixo levar. Eu escolho desligar os botões (e convém desligá-los às vezes). Eu decido, pois, desligar os botões da intermitente transparência deliberativa do meu agir. O mesmo se aplica às coisas irresistíveis. Não exatamente o mesmo, pois há, nesse caso, a seguinte diferença. Se falamos que o objeto “x” é irresistível, isso pode apenas significar que nosso sentimento de atração escapa de nosso poder (de nosso autocontrole). Não decido sentir-me atraído (embora seja bem interessante pensar no auto-adestramento dos desejos). Bem, essa é uma forma de chamar um objeto de irresistível. Porem, sempre implicará decisão aproximar-se do objeto irresistível. (E essa aproximação não é irresistível; é o objeto que é). De fato, sempre implicará decisão, visto que o botãozinho liga/desliga está sempre ao alcance de nossas delicadas mãos (se é que não somos autômatos passionais). Não existe nada irresistível se isso significar que agimos de tal maneira devido à força irresistível do objeto “x” ou “y”. Se agimos fazendo A, agimos podendo fazer não-A. A filosofia pode ser amiga da poesia. Não vamos provocar falsas rivalidades.
Você conhece a máxima 122 de La Rochefoucauld? “Se resistimos às nossas paixões, é mais pela sua fraqueza que por nossa força”.
Sim, conheço. E daí?
Daí ...? Nada não.
Ora, ora, vamos lá Amanda. Não faça biquinho. Não basta citar. Acharia melhor uma coisinha simples como: “Concordo com ...”. Já ajudaria. E ficaria melhor se dissesse por que concorda. Veja, eu poderia indagar: como La Rochefoucauld prova essa declaração? E aí alguém poderia responder: pela observação, pelo conhecimento dos fatos da vida e blábláblá. Empiricamente, no fundo, sequer há alguma coisa como “a nossa força”, entendendo isso como vontade. Empiricamente, é melhor mesmo sucumbirmos à ideia de que somos movidos por paixões. Então, nem deveria o Sr. La Roche falar que é menos por uma coisa é mais por outra, visto que a outra (a nossa força) não oferece disponibilidade empírica.
Agora, é ótimo acreditar no que ele diz, não? Quer dizer, muitas vezes é bom. Não precisamos assumir as rédeas de nossas decisões (sequer haveria autêntica decisão). Um camaradinha irresoluto, hesitante provavelmente encontraria consolo na ideia de que suas ações resultam de um jogo de forças. Um “jogo de forças”? Sim, seríamos ora empurrados para um lado, ora para outro. É claro que é mais fácil resistir a um objeto que tem força atrativa pequena. Mas do fato de ser fácil ou difícil não se segue que nossa vontade seja uma força versus outras forças. Não, eu penso que há uma assimetria entre nossas inclinações e nossa vontade. Uma indica nossa natureza desiderativa, outra indica justamente nossa capacidade de sermos agentes, autores, protagonistas de nossas vidas. Não tem desculpa. Mas que é um confortável travesseiro para quem acredita poder repousar sua cabecinha, ah isso é.
Era isso. Encontrei na internet e queria saber o que você pensava. achei que seria uma boa provocação. Acertei, não? embora eu não tenha convicções tão firmes assim e nem faça biquinho. Abraços.
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