18 janeiro 2010

Haiti, anjos e Deus

Que coisa horrível, não? Milhares de pessoas mortas. Aquelas que não sofreram senão um golpe na cabeça, aquelas que morreram rapidamente podem ser consideradas felizes perto do sofrimento daqueles que, sob escombros, sentiram a sua vida ser aos poucos esmagada. Dizem que depois de 4 dias é improvável a sobrevivência. Quanto tempo dura 4 dias? 1 ano? 5 anos? Dura até a chegada da morte redentora. De fato, a morte redime-nos da dor, tornando-se desejável. E imaginem aqueles cuja vida foi esmagada com a morte das pessoas que amavam. Alguém terá tentado se matar? Quanto sofrimento! E há quem consegue encontrar um sentido para tudo isso. E os mortos sendo enterrados numa vala comum? Numa vala comum! Prestem atenção nesse nome: “vala comum”.

Mas existem os verdadeiros anjos humanos. Nesses salvadores eu acredito. O Haiti nos ensina muitas coisas.

*  *  *

« J'ignore s'il [Dieu] existe, mais il vaudrait mieux, pour son honneur, qu'il n'existât point »
(Jules Renard)



Agora, algo perturba profundamente meu pobre cérebro: pessoas agradecendo a Deus por terem sobrevivido. Pessoas que perderam suas casas, seus filhos, pais, irmãos, mulheres. É possível entender palavras de agradecimento a Deus como meras palavras retóricas de um individuo piedoso exprimindo simplesmente sua fé. Mas se levarmos a sério o que é dito, se aceitarmos que um padre, um pastor, um líder religioso qualquer, quando agradece a Deus a vida dos sobreviventes profere palavras ponderadas e supostamente significativas, então as reflexões das pessoas razoáveis deveriam ser por demais intrigantes. Por que agradecer a Deus apenas pela vida dos sobreviventes e não acusá-lo pela morte de milhares de pessoas? Não seria mais coerente agradecer a Deus também pelas mortes? Agradecer a Deus por tudo: pelo ar que respiramos, pela luz do Sol, pela vida e pela morte. É pouco razoável imaginar que Deus tenha salvado apenas algumas pessoas, tendo as amparado por alguma predileção especial. Vejam, talvez seja um erro querer culpar Deus pelo que ocorreu. Talvez Deus não tenha nada a ver com terremotos. Mas se for assim, por que Deus teria algo a ver com a salvação de vidas num terremoto? Porque se Deus se envolveu com esse terremoto, salvando pessoas, ele se envolveu completamente, ou seja, ele também achou necessário eliminar a vida das pessoas. Ou ele não julgou necessário salvar ninguém – e tudo poderá ser remetido à causalidade natural, ou à causalidade por liberdade dos homens -, ou ele julgou necessário agir e ... Bem, sabemos o que aconteceu.

Aos interessados pelo tema, poderá ser últil apertar o mouse.


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9 comentários:

Karem Regina Costa disse...

"Meu Deus, que tenho eu com as leis da natureza e a aritimética, se por algum motivos não me agradam essas leis, e os dois e dois são quatro? Está claro que não romperei esse muro com a testa, se realmente não tiver força para fazê-lo, mas não conformarei com ele pelo fato de ter pela frente um muro de pedra e de não terem sido suficientes as minhas forças."
(FIÓDOR DOSTOIÉVSKI).

"Vós que viveis e sempre atribuís tudo o que ocorre na terra aos movimentos celestes, como se tal movimento imprimisse em todas as coisas uma necessidade.Se assim fosse em vós seria destruído o livre arbítrio, e não seria justo que o homem tivesse por bem a alegria e por mal a dor" (DANTE ALIGHIERI).

Desde os primordios atribuimos nossas catástrofes, tanto naturais quanto existenciais, às divindades.Isso é comum. O fato é que as coisas são porque são. Dante coloca isso de uma forma perfeita. Se temos o controle sobre nossos destinos, nada me melhor do que aceitação do ápice de nosso prazer mas também das nossas desgraças. Há algo de extremamente sedutor na existência: seus mistérios, nossa limitação para explanarmos o todo, a nossa impossibilidade de controlarmos as situações. Pode parecer patológico, mas tanto as misérias humanas como suas virtudes parecem um jogo perfeito para satisfazer e ego do Poder Superior. Não acredito que haja uma escolha de um índividuo ou outro para passar por qualquer tipo de sofrimento, apenas temos que nos contentar com o que nos é oferecido, porque isso nos mostra o quão nada somos, porque nada podemos fazer para mudar os fatos que aí estão. Incorremos no erro quando tentamos explicar a subjetividade do "Logos-Organizador", Ele vai sempre nos colocar no lugar a que pertencemos...."

ABRAÇO DA KAREM

Aguinaldo Pavão disse...

Karem.
Obrigado pelo comentário.
Você me oferece a oportunidade de dizer mais algumas coisas sobre o deveras bondoso Deus. Meu ponto não visa a criticar quem atribui tudo à Divindade. Estou disposto a aplaudir um sujeito assim tão coerente. Mas se o camaradinha considera que só as catástrofes (e males em geral) devem ser imputadas a Deus, parece-me que ele está fazendo uma restrição curiosa na atribuição à casualidade divina de apenas uma parcela dos fenômenos (não sejamos injustos com Deus). Do mesmo modo se ele só atribui a Deus as vidas que não foram esmagadas num terremoto. Nos dois casos vejo incoerência. Como entender que Deus só é responsável pelo bem a não ser admirando-se com a superstição e credulidade dos homens? Ou Deus não entra na parada, (a) fica apenas assistindo os prédios desabarem na cabeça dos humanos, ou (b) ele entra em ação, seja (b.1.) jogando os prédios na cabeça de algumas criaturas e (b.2.) também suspendendo com a mão (ou com outros expedientes menos notáveis) as lajes que poderiam esmagar os cérebros de seus outros filhos. Coerência! Ou você acha que “as coisas são porque são”, ou você apresenta uma explicação para o que ocorre. Você não pode ficar com as duas coisas (salvo uma elucidação especial do que significa “as coisas são porque como são”).
Abraço.

Karem Regina Costa disse...

"A terra ensina-nos mais acerca de nós próprios que todos os livros.Porque ela nos resiste."
(ANTOINE DE SAINT-EXUPÈRY)

"A ciência por si só é incapaz de responder todas as perguntas e, apesar de seu desenvolvimento, ele nunca vai." (CLAUDE LÉVY-STRAUSS)


Oi Professor,

Quando disse que"as coisas são porque são", tive a intenção de isentar a Divindade tanto dos regozijos humanos quanto de suas misérias. Talvez a segunda frase de Lévy-Strauss, ilustre melhor meu pensamento. Não sabemos porque fomos colocados aqui e ora padecemos e ora somos felizes. Essa pergunta vai resistir as eras vindouras. Pensar que um Ser Superior possa estar nos bastidores manipulando todas a coisas me faria sentir meio "marionete" na existência. Somos seres livres (dotados de liberdade de escolha, e é claro que às vezes ficamos reféns de nossas próprias escolhas), uma vez sentindo-me assim seria impossível pensar que tudo que há ao meu redor está sendo controlado por algo Superior, entraria numa "pira" da "Teoria da Conspiração". Portanto acredito que não há um Deus responsável por catástrofes ou por livramento delas.É obvio que as coisas não surgiram do nada, foram criadas (por um Ser Superior ou uma Inteligência, como queira), e que tudo que aí está possue suas leis que não deixarão de ser cumpridas para livrar essa ou outra espécie que aqui vive. O ciclo precisa continuar independente do que aconteça. O Universo possue suas regras que também não deixarão de ser cumpridas para livramentos de espécies. Isso é o que chamo "as coisas são porque são"., elas cumprirão sempre o seu caminho quer nos agrade ou não. Espero ter me explicado.

Abraço

Almir Escatambulo disse...

Caro Pavão talvez o fato de atribuir a ¨sorte de ter sobrevivido o terremoto a Deus¨ seja uma forma de escamotear a realidade, de que a raça humana não tem forças para encarar a natureza, assim sendo os homens no caso os haitianos preferiram atribuir a Deus tal milagre ou desastre como preferir... Alias como todos os outros homens fazem quando escapada da morte devido a um tiro de escopeta ou de um acidente de avião enfim....

abraços

Marcus cesar disse...

"Ele não poupou nem o Filho dele,vai poupar um bando de carniça como e ser humano?"(Leitura calvinista)
Não que eu concorde ou discorde dessa posição,mas seria importante fazer uma análise da finitude nesse tema fazendo uma abordagem sociológica e política desse assunto.

Aguinaldo Pavão disse...

Oi Marcus.
Se alguém me perguntasse: por que Deus deveria poupar os haitianos se nem seu filho ele poupou? eu responderia: porque alegam que ele é bondoso. Simples. Sobre a finitude, abordagem sociológica e política, eu agradeceria se você pudesse, pontualmente, me dizer qual o ganho disso para a discussão que proponho - sobre a bondade divina e a incoerência dos seres humanos ao agradecerem a Deus pelas coisas boas e o isentarem das más.

Marcus cesar disse...

1)Não posso garantir que haverá ganho para a discussão que propuseste.A perda,a desconstrução e a descontinuidade permite que entendamos o próprio sentido de coerência ou coesão na medida que não colocamos as diversas formas de pensar numa forma hierarquizada e subordinada,repensando todo o padrão epistemológico com a qual classificamos,de acordo com os escalonamentos que colabora para assim estender um juízo de valor, e que procura marginalizar e inferiorizar e simultaneamente procura afirmar a verdade,assinalando o diferente como duvidoso e falso,em detrimento de outra cosmovisão e em dificuldades de lidar com categorias de espaço e tempo,de forma que através de uma episteme e de um olhar,procura-se encaixar e anular as diferenças para que assim possa serem pensamentos "primitivos" e serem enquadrados dentro daquilo que se pretende ser absoluto e universal;
2)Bondade e maldade são conceitos finitos que se encaixam de acordo com a posição e ethos do indivíduo e/ou do coletivo,como fruto de uma prática deliberada ou não das diversas pessoas envolvidas,e na forma como elas interpretam determinado momento e como elas atingem e como são atingidas e a sua reação diante de determinado quadro,assinalando também as frustrações e alegrias envolvidas em complexo diverso;
3)Isentar ou não,creio que essa atitude está ligada mais ao significado do mundo e das coisas para as pessoas,mesmo que seja taxado de incoerente e irracional,pois esses adjetivos estão assentados quando se acredita que o ser humano tem uma essência,e que a sua busca pode ser interrompida ao deparar com sistemas desviantes de determinado padrão;
4)Há um comentário de um colega que afirma que a religião,ou a religião dos haitianos tenta escamotear a realidade,mas a realidade do quê,para quem,existe somente uma realidade?Todas essas elocubrações(Deus,os homens e sua incoerência,realidade)caem no terreno da busca do homem perfeito,o que no fundo é parte de um grande projeto político com finalidade de estabelecer uma civilização,e isso pode ser visto em diversas áreas das ciências humanas (teologia,filosofia e outros).

Aguinaldo Pavão disse...

Marcus.
1) Ao que parece você está a defender alguma forma de relativismo epistêmico de índole culturalista. Contra essa visão, eu defendo a legítima autoridade de um tribunal da razão.
2) Bondade - como eu entendo nessa discussão - implica, além de não causar danos a outrem, fazer o bem (por exemplo, evitar o sofrimento de pessoas inocentes) e impedir o mal sempre que tal ação estiver ao nosso alcance. Supondo que Deus possa impedir o mal, o fato do mal não ser impedido prejudica a nossa compreensão dele como um ser bondoso.
3) Sem algum padrão só nos restaria o silencio ou a poesia.

Marcus cesar disse...

Prof.Pavão,

1)Ao defender um tribunal da razão,entende-se uma espécie de judicialização de algo tão abstrato que somente póstumas elocubrações podem suscitar uma interpretação carente de materialidade e espacialidade;

2)Uma resposta em relação a bondade,não que eu concorde,diz respeito que a ética e moral estão ligadas a finitude e subordinação,algo que não atinge um SER ETERNO,ONIPOTENTE E INDESTRUTÍVEL.Se Ele é,tenho com meus botões alguns questionamentos,está livre desses adjetivos e imperativos;
3)O importante seria a linguagem e as coisas,não um padrão que enjaulasse todo e qualquer pretensão a liberdade.Aliás padrão e cânon são parentes não muito distantes!