23 agosto 2009

Debate na CBN sobre lei antifumo

Ontem pela manhã participei de um debate na Rádio CBN sobre a lei antifumo. O debate durou aproximadamente uma hora e foi primorosamente mediado pelo jornalista Bruno Amoresi. Estavam presentes um cardiologista (Dr. Nicanor), um representante da Abrasel (Sr. Arnaldo), um vereador (Jackson Dias) e esse miserável professor de filosofia da UEL. O ponto alto, acho, foi notar a reação do médico cardiologista a algumas observações minhas. Preciso registrar, porém, que meus três parceiros de debate foram assaz educados e a discussão teve as vantagens do face to face entre pessoas civilizadas. (É bom lembrar isso quando se vê tantas reinaldetes e olavetes pousarem de gladiadoras em blogs, mas sem a mínima coragem de um face to face de 30 segundos).

Abaixo um pequeno relato (de memória) de alguns momentos do debate que julgo interessantes.

O médico discorreu sobre os malefícios à saúde do tabagismo. Eu afirmei que os cuidados que uma pessoa tem com sua saúde são problemas dela e não justificam qualquer interferência do Estado. Ações de um indivíduo que dizem respeito somente a ele não carregam consigo nenhuma ilicitude. Aleguei que a lei antifumo é ilegítima, visto negar ao proprietário de um estabelecimento privado exercer sua liberdade de determinar a política tabagista que achar conveniente para o seu negócio. Afirmei que não existe direito individual de entrar num bar. Se entrou num bar em que o dono permite o fumo, a pessoa não tem qualquer direito de reclamar. Falei, dirigindo-me ao vereador, que a lei londrinense, embora menos agressiva que a de São Paulo, era igualmente lamentável. Enfatizei que meu interesse na discussão era moral e não médico ou jurídico.

O médico reagiu. Ele respondeu dizendo que a sua preocupação também era moral, pois a sociedade era quem acabava pagando a conta das pessoas que não cuidam de sua saúde. Quando ouvi isso fiquei excitadíssimo. Repliquei alegando que, pela lógica da sua argumentação, o médico deveria defender leis contra diabéticos refratários às dietas prescritas pelos seus endocrinologistas. Disse ainda que, por coerência, o cardiologista precisaria defender que hipertensos também teriam de se tornar objeto de uma lei a fim de serem penalizados em seus consumos excessivos de sal. Além disso, sustentei que não via nenhuma razão para a existência de um sistema público de saúde. O médico saiu com essa: que meu discurso era utopia, era “filosofia”, que a sociedade acabava sim arcando com custos de atendimento aos fumantes, aos diabéticos e hipertensos. Então perguntei: mas há leis que punam diabéticos e hipertensos negligentes com suas condições de saúde? O médico: não, mas há algo parecido, as campanhas de esclarecimento sobre diabetes e hipertensão, o dia mundial do diabetes. Acho que minha resposta foi mais ou menos a seguinte. Primeiro, não é uma lei natural (física) a existência de um sistema público de saúde. Como acredito ter razões morais para ser contra esse sistema, posso concluir que é possível sim extingui-lo. Em segundo lugar, não se pode confundir campanha de esclarecimento com leis punitivas como a lei antifumo. A discussão seria bem diferente se a questão girasse apenas em torno de campanhas de esclarecimento sobre os malefícios do tabagismo. Defendi que se um indivíduo (que não seja hipossuficiente) fuma e contrai doenças pulmonares, esse indivíduo é responsável pela sua saúde. Ele tem de pagar com o dinheiro do seu bolso o seu tratamento (e não outro indivíduo que não pode moralmente responder pela ação de um terceiro). Se o camarada é negligente com sua saúde, é dele a responsabilidade por tal negligência.



Copyright © 2009 Aguinaldo Pavão
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11 comentários:

Paulo Briguet disse...

Caro Aguinaldo:
Sua argumentação, neste caso, foi perfeita. A lei antifumo prospera - e com alta aprovação popular - porque as pessoas, paradoxalmente, adoram ser escravas e adoram mandar umas nas outras. Tudo ao mesmo tempo: é o complexo brasileiro de servidão mental.
Abraço.

(PS - Obrigado pela colher de chá no post anterior; eu substituria o adjetivo "brilhante" por "claudicante", mas tudo bem. Não sou tão importante para ser modesto. Você já reparou que uso os termos "crônica" e "ironia" para escapar dos debates sistemáticos?)

Marcus cesar disse...

Gosto da maneira com que colocas suas posições.Devo admitir que és um espartano na defesa de suas idéias!
Abraço

Aguinaldo Pavão disse...

Caro Briguet.
Mantenho o adjetivo. Aproveito para dizer que meus argumentos aqui não são nada sistemáticos. São, na verdade, meros palpites sujeitos, como tais, à revisão. As críticas argumentadas sempre serão bem-vindas.
Abraço.

Aguinaldo Pavão disse...

Caro Marcus Cesar.
Obrigado pelo generoso comentário.
Abraço.

Edgar disse...

Se você divulgasse esse tipo de participação antecipadamente para os leitores do blog, eu seria um dos que sintonizariam o rádio para ouvir. Deixo então a sugestão.
Abs

Paulo Briguet disse...

Concordo com o Edgar. Avise-nos antes de participar desses debates, Aguinaldo.

Marcus cesar disse...

Acho radical demais o não custeio do tratamento médico,Mas poderia ser feito um cálculo sobre o percentual de brasileiros que fumam e a verba estatal proporcional ao número de fumantes,que são contribuintes e pagam pesados impostos, e daí custear o tratamento.Aliás para ser mais específico,a arrecadação de impostos com os cigarros deveria ser utilizada melhor em medidas como a desintoxicação de tabagistas com remédios de melhor qualidade!
Abraço

Dimitri Diniz da Costa disse...

Olá, eu fiquei apenas com uma dúvida com relação a esse assunto. Vamos analisar primeiramente o fato de uma pessoa alcóolatra morrer de cirrose. Ok, o estado pagará caso ela não tenha condições para arcar com qualquer custo. A dúvida é: o fumante, por todas as vias públicas que transita tem a liberdade de, por isso, jogar sua fumaça a um terceiro que não fume? A segunda questão diz que: hoje, no achômetro, 60% das pessoas que saem a noite, fumam então, devemos nos ater a um número muito pequeno de espaços para não fumantes ou não sair de casa porque nossa saúde está em jogo devido a terceiros e o estado não se importa com o cidadão? Gostaria de um esclarecimento já que não encontro lógica em manter lugares fechados, seja público ou privado-público(não esqueça que os lugares não são propriamente privados já que quem frequenta eles são o público, eles apenas não são do Estado)com fumantes que prejudicam terceiros ao contrário de outro consumo como a bebida que só afeta o usuário. Abraço

Aguinaldo Pavão disse...

Oi Dimitri.
Muito obrigado pelo comentário.
Sobre tua primeira questão, inclino-me a pensar que o fumante não tem o direito de, numa via pública (numa calçada, por exemplo), jogar a sua fumaça na cara dos outros. Há porém a necessidade de ponderarmos como seria aplicável uma restrição da liberdade como essa. Por coerência, imagino que teríamos de impedir o uso de automóveis poluidores.
Sobre um bar (e isso vale para qualquer espaço que, embora público, seja propriedade privada): não interessa, a meu ver, qual o percentual dos freqüentadores de bares que fumam. O que interessa é o direito do proprietário do bar permitir ou proibir, de acordo com seu julgamento, o fumo dentro de seu estabelecimento. Ninguém tem o direito de exigir lugares livres def fumo para seus programas noturnos. Se a alternativa for ficar em casa, isso em nada atinge o princípio da máxima liberdade possível (a minha liberdade de agir só pode ser limitada se impedir a liberdade de agir de outros, segundo um princípio universal possível). Talvez seja importante ressaltar que minha discussão não se refere ao direito positivo. Ela é exclusivamente inspirada em considerações do direito natural.
Abraço.

Dimitri Diniz da Costa disse...

Compreendi melhor a questão. É que tudo isso gira em torno do fato das pessoas gerarem "barreiras" as outras sem, contanto, questionar se o que fazem tem algum grau de relevância negativa a outra. O carro é um mal, mas ainda assim é um mal necessário e ajuda as pessoas. O cigarro, por outro lado, não gera nada de positivo a um terceiro. Conviver com a fumaça de um automóvel é necessário para que haja uma possibilidade absurda de vida. Já o cigarro é só uma via negativa para ambos os lados. Mas gostei do teu ponto de vista. Como um não-fumante, aonde vou, tenho que respirar o cigarro de uma pessoa que fuma pelo prazer da ignorância e que não se importa com o outrem. Da mesma forma que um alcoólatra, é claro, mas ao menos este não me faz eu beber por ele. Abraço.

Aguinaldo Pavão disse...

Oi Dimitri
Obrigado pela indicação. Lamento não ter nenhum comentário conceitual a fazer sobre Emil Cioran. Há muitos anos, lembro-me de ter começado a ler os Silogismos da Amargura, mas não me sensibilizou muito. Eu deixo de aprender muitas coisas porque, às vezes, me falta a devida paciência para com alguns autores.