D. Bertrand de Orleans e Bragança, da "Associação dos Fundadores" (seguidores dos princípios de Plinio Corrêa de Oliveira, idealizador da TFP), afirmou na Folha de São Paulo de hoje: "Somos de direita. Muita gente não se diz de direita porque existe no Brasil uma campanha malévola para dizer que quem é de direita é nazista, embora nazismo e o comunismo sejam verso e reverso da mesma medalha." De acordo com a Folha, para Orleans e Bragança, o objetivo histórico da TFP sempre foi o de lutar contra "toda corrosão que exista do direito de propriedade", como, agora, "as questões quilombola, indígena e ambiental" - além, claro, dos sem-terra. Se a direita católica fosse apenas isso, eu a consideraria muito coerente e uma boa representante da direita. Acho que o senhor Orleans e Bragança está certo em dizer que nazismo e o comunismo são verso e reverso da mesma medalha. São dois regimes totalitários. Porém, ao passo que o comunismo cai perfeitamente na definição de esquerda, segundo a qual a esquerda tem como ideal a igualdade, o nazismo não encontra abrigo algum numa certa definição de direita, de acordo com a qual a direita tem como fim a liberdade. E sua posição sobre a propriedade me parece primorosa. Até aqui tudo bem.
Acontece que os católicos de direta não querem apenas que o Estado garanta o direito à propriedade, eles também clamam para que o Leviatã impeça, por exemplo, a eutanásia, o casamento de homossexuais, a legalização do consumo e comércio das drogas - e não faz diferença aqui se eles tomam lugar na fila dos seguidores do idealizador da TFP, ou se os adeptos desse liberalismo de dois mil réis fazem pose de não-sectários. Ora, o que esses três impedimentos estatais (sobre homossexuais, drogas e eutanásia) têm a ver com o direito à propriedade? Eles, por acaso, visam a impedir que o direito à propriedade seja exercido? Não. Logo, essa direita católica carcomida (seja ou não TFP) representa muito mal o liberalismo e a luta pela liberdade.
E vejam: seria perfeitamente possível ser católico fervoroso e liberal conseqüente. Bastaria reconhecer que a legítima coação estatal tem um limite muito claro: ela visa a garantir o exercício da liberdade de ação compatível com a liberdade dos outros segundo um princípio universal possível. Isso um católico ardoroso poderia defender. Uma direita libertária precisa assumir a tolerância para com diferentes posições morais. Ora, o nosso papa-hóstias apenas teria de reconhecer que não seria tarefa do Estado impedir que as pessoas do mesmo sexo se unissem, assim como se unem as de sexo diferente, nem tarefa do Estado impedir que as pessoas introduzam no seu corpo a substância que quiserem. Tampouco seria função do Estado impor às pessoas que não desejam mais viver, e não tem como dar cabo desse desejo por conta própria, a continuidade de suas vidas. Ele teria, o papa-hóstias, de reconhecer que para impedir as pessoas de tais atos, por ele considerados errados, seria preciso persuadi-las, não coagi-las por meios estatais. Pronto, assim teríamos um liberal de fato.
Mas esperar isso dos católicos talvez seja esperar demais. Opa, calma lá. Não, pensando bem, talvez não. É um voto de confiança na humanidade esperar que as pessoas sejam coerentes e melhores. E eu confio fanaticamente no progresso moral e intelectual humanidade.
9 comentários:
Meu caro, e o aborto? Vc que fala tanto do aborto, qual a razao do esqueciemento. É medo?
Caro Aguinaldo, acredito que os católicos, de modo geral, não são coerentes com os dogmas do catolicismo. Alguns, inclusive, intitulam-se católicos não-praticantes, ou seja, foram batizados, no entanto, abandonaram as práticas religiosas. Devido a isso, apesar de eu gostar muito das suas ironias --- e isso não é uma ironia ---, acredito ser difícil a generalização "papa-hóstias", pois os católicos dificilmente, na minha concepção, conseguem ter uma visão de mundo coerente com a religião católica.
Já sendo difícil, para o católico, uma coerência com sua própria religião, torna-se mais difícil ainda compatibilizar tal religião com uma posição política liberal. Não sei se me fiz claro, mas, de todo modo, expresso aqui uma opinião apressada com sede de ser corrigida.
Abraço,
Fabiano.
RESPOSTA AO SENHOR SÉRGIO.
Pelo jeito, depois dos impressionantes argumentos do leitor das obras de Sócrates, ganhei novos leitores. Caro e ilustríssimo Sérgio, basta você ler meus posts para notar que não considero o aborto uma bandeira da direita. É claro que se poderia objetar que eutanásia, legalização das drogas e casamento de homossexuais também não são bandeiras exclusivamente da direita. Acontece que, com respeito ao aborto, considero respeitáveis as opiniões (de liberais e não liberais) que o condenam (quero dizer, considero respeitáveis os juízos fundados em argumentos, não essa estupidez de dizer que a vida do feto é a vida de um ser humano inocente (igual a de qualquer outro ser chamado humano) e que, portanto, é errado matar o feto – uma evidente circularidade) . O mesmo respeito não posso ter por quem se diz liberal e é contra eutanásia, consumo e comércio de drogas e casamento de homossexuais. São liberais pela metade (quando muito). Não pense como o mui respeitável debatedor que aborto é um valor de esquerda (e nem que seja de direita). E não confunda medo com coerência.
Caro Fabiano.
Obrigado pelo comentário.
Eu preciso corrigir o último parágrafo. Queria dizer: católicos de direita. Mas mesmo assim é uma provocação, pois, no limite, católicos de direita talvez sequer se pretendam liberais. Eles estariam supondo uma compreensão de direita historicamente aceitável, mas que não se ajusta à idéia que tenho de direita. A meu ver, no mínimo alguém de direita tem de lutar pela liberdade econômica. Isso naturalmente precisaria ser melhor desenvolvido. Mas aqui estou apenas dando uma rápida resposta que considero suficiente para dar prosseguimento à discussão.
Sobre o papa-hóstias, a intenção era debochar mesmo dos católicos. E para debochar dos católicos eu preciso debochar de uma caricatura deles. É claro que estou forçando a barra. E é bem intencional.
Abraço.
Em suma, Aguinaldo, o problema da TFP é que não são só pelo "P" rsrs
Sim, Andréa, perfeito.
Não dava mesmo para esperar que D. Orleans e Bragança parasse no “P”.
Mas é interessante que essa turma assume o “TF” (embora haja uma pendência na justiça sobre o uso da sigla), ao passo que os digamos TF "enrustidos" se dizem liberais católicos, liberais conservadores ou qualquer outra autodenominação que eles supõem mais charmosa, em vez da desprezível TFP, embora no fundo sejam igualmente muito mais pela TF do que pela P. Então, a crítica à TFP vale também para quem não é da TFP.
Caro Aguinaldo,
A resposta foi ótima e clara!
Abraço,
Fabiano.
A direita católica é tão ruim como a esquerda católica
Por falar em direita e esquerda, vc viu a última do governo, Aguinaldo? Agora, seremos forçados a comprar air bag e coisas assim, para nossa segurança, é claro. Fiquei tão "aquele outro p" da vida que até postei no meu esquecido blog rsrs
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