Na Bíblia sagrada, esse belo livro de literatura que muitas mentes piedosas lêem de joelhos, pode-se ler: tudo que vocês desejam que os outros façam a vocês, façam vocês também a eles (Mateus 7:12). O tão venerável desprendimento moral pregado pelos cristãos precisa de outro apoio. Provavelmente a palavra de Deus não tenha sido bem captada pelo evangelista. Com efeito, o princípio que ele afirma não passa de um princípio egoísta. Um pouco de Kant para mostrar isso. Kant na Fundamentação da Metafísica dos Costumes se opõe explicitamente ao princípio não faças a outrem o que não queres que te façam. A oposição a esse princípio se dá num contexto em que Kant está a explicar a aplicação da segunda formulação do imperativo categórico com referência ao exemplo de “não mentir”. Como se sabe, a segunda fórmula do imperativo categórico reza: Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim, e nunca simplesmente como meio. Nesse sentido, Kant elucida que um indivíduo que intenciona fazer uma promessa mentirosa facilmente reconhece servir-se de outro homem simplesmente como meio. Assim, ele pode perceber a imoralidade de sua máxima, pois ele deixa de tratar os seres racionais como fins em si.
Mas o imperativo categórico não se confunde com a regra de ouro. O não fazer ao outro o que não quero que o outro me faça somente pode ser aplicado em relação aos outros e, portanto, não permite pensar num princípio moral que se refere também aos deveres que tenho com relação a mim mesmo (por exemplo, para Kant, o dever de conservar a vida e cultivar os talentos). Tampouco autoriza pensar a exigência moral da caridade, pois a caridade é um “fazer ao outro”, isto é, envolve positividade da relação que tenho com o outro, ao passo que se me oriento apenas pelo princípio de não fazer ao outro o que não quero que o outro me faça, ajo apenas de modo a evitar causar danos ao outro, mas não a promover o seu bem. Mesmo que se pense o princípio em termos positivos - como ocorre na citação bíblica -, pode-se dar o caso, como diz Kant, que eu dispense a ajuda dos outros e, assim, não esperando que os outros me ajudem, não reconheça o dever de ajudá-los. Enfim, quem governa a regra de ouro não é outro sujeitinho a não ser o querido e amado eu.
5 comentários:
Tudo bem Aguinaldo?
Desculpe-me, mas fiquei com uma dúvida nesse seu texto.
No segundo parágrafo vc fala do "desprendimento moral" dos cristãos. Eu não entendi o que quer dizer essa expressão ou termo, se assim puder chamar.
Conto com a sua gentileza,
muito obrigado
Guilherme Bordonal
Guilherme.
Quis dizer altruísmo (latu sensu.)
Abraço.
Concordo que a regra de ouro, desprendida de todo contexto doutrinal cristão, acaba levando a um princípio egoísta, além de não ser apta para guiar cabalmente uma ação moral. Agostinho já havia percebido isso no Livre Arbítrio, quando discute com Evódio sobre o que é "fazer o mal". Agostinho pede a opinião de Evódio sobre o porque de ser mal o adultério, por exemplo, (podia ser qualquer outra ação considerada imoral). Evódio responde que o adultério é um mal pois não quer ser vítima dele na pessoa de sua esposa.
Podemos perceber a regra de ouro aqui. Não cometo o adultério contra alguém pois não quero que alguém faça o mesmo comigo. Agostinho percebe um problema e argumenta: "E se alguém, guiado por uma paixão desordenada, não se importasse em sofrer o adultério afim de cometê-lo com a esposa de outrem". A regra de ouro não valeria mais, pois eu não me importo que façam sexo com minha
esposa, pois também quero fazer o mesmo com a esposa dos outros. A idéia de Agostinho é de que exista ordem na psicologia da ação moral: a razão deve dominar as paixões. (Se ele conhecesse o imperativo categórico talvez concordasse com Kant).
Talvez (ainda fora do contexto cristão, pois dentro do escopo do cristianismo me parece um pouco menos complicado resolver sua provocação) podemos pensar a regra de ouro seguida por outro princípio.
Ficaria assim:
1) Tudo que vocês desejam que os outros façam a vocês, façam vocês também a eles.
1.1) Mesmo se nunca fizerem a você não importa. Importa que você trate os outros como queria ser
tratado.
Aí me parece que melhora um pouco. Reconhece-se um certo egoísmo, mas como algo inato, instintivo, de buscar o melhor para nós mesmos. Se desejo o bem e evito o mal, devo saber que os outros também
fazem isso. Se eu duvido como tratar o outro basta consultar o meu próprio desejo (de forma ordenada, como diria Agostinho).
Dentro do escopo do cristianismo, como eu disse, me parece menos dificil resolver a aporia, pois não é a regra de ouro "sozinha" que deve reger o desprendimento moral cristão. No evangelho de Lucas, onde ele narra exatamente a mesma passagem que você citou nas palavras de Mateus, aparece o complemento da regra de ouro: "Amai vossos inimigos, fazei bem sem esperar nada em troca".
O que resumiria a ética cristã seriam os dois mandamentos: Ame a Deus com todas as forças e o
próximo como a ti mesmo. Amar a Deus sobre todas as coisas é um dogma fideísta e escapa da
argumentação racional. Amar o próximo como a ti mesmo envolve relações éticas e podemos pensar
filosóficamente.
Amar o próximo como a ti mesmo. Parece que novamente o egoísmo aparece, mas podemos pensar isso, como ja disse acima, como o instinto de buscar o bem e evitar o mal para si mesmo. O amor ao outro precisa ser totalmente desinteressado. O que rege a ética cristã seria a charitas, o amor. (O amor é paciente, não guarda rancor, não é egoista... (Corintios 13)
Se é possível tal amor totalmente desinteressado já não sei. Paulo achava que não. "Não faço o bem que quero mas o mal que não quero". Só a graça ajudaria o homem a ser moral.
Falando algo agora por mim mesmo, sem muito fundamento. Na minha opinião não dá pra extrair um princípio totalmente racional da ética cristã. A ética cristã deve ser uma mímesis, uma imitação do arquétipo que seria Cristo. (Kant nunca concordaria com isso, pois mesmo o "justo do evangelho deve ser avaliado pelo princípio moral racional").
Um abraço
PS.: Gosto muito dos seus textos, vão direto ao ponto.
Alison
Alison.
Obrigado pelo comentário. Achei muito interessante. De todo modo, ele parece deixar claro (ao menos para mim) que o texto bíblico nada tem de sagrado. Se isso for verdade, um dos artigos de fé dos cristãos cai por terra.
Abraços.
Texto muito bom!!!! Bom mesmo!!!!
Sergio Ribeiro Aluno de filosofia da UEL. Leitor deste Blog.
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