16 novembro 2008

Madame Bovary

Madame Bovary é um dos livros que mais me encanta. É um livro com uma intensidade literária que me faz perder a respiração às vezes. Eu assisti ao filme de Chabrol pela primeira vez antes de ler o livro. Depois assisti várias vezes o filme (também vi um mais antigo, mas esse não me sensibilizou tanto). Eu me fixava numa cena e com o livro em mãos procurava a passagem. Então, suspendia provisoriamente o filme e ficava me deliciando na releitura de algumas páginas. Depois voltava ao filme e fazia esse movimento de ver e buscar o texto de Flaubert. Há pouco tempo, na TV Futura, passou o filme de Chabrol. E, mais uma vez, fiquei inebriado pensando como é contundente a forma de descrever o conflito entre o eu e o mundo.

Muitos afirmam que Emma representa a oposição do indivíduo com suas nobres aspirações diante da ordem burguesa de seu tempo. Essa, claro, é apenas uma das talvez consagradas opiniões a respeito do livro. Eu me pergunto: será isso? É verdade que Emma está em luta contra o estado das coisas. Ela deseja o que não pode ter. Ela desejara um marido que a fizesse feliz. Mas o seu marido é, em resumo, um fraco. Ele a ama profundamente, mas Emma não quer simplesmente que a amem. Ela quer que a amem de um certo modo. De um modo que um homem insípido como Charles jamais poderá amar. E é interessante que essa sonhadora mulher parece apostar que Charles poderia ser digno de afeição amorosa. Parece que ela se entusiasma sinceramente com a possibilidade do médico obter glória com a cirurgia de Hippolyte.

Mas Charles é inseguro, pálido, de alma pequena, pusilânime. A cirurgia é um rematado fracasso. Charles é um fracasso. Ele simplesmente não a entende, ele não percebe com que mulher está envolvido. Ela, claro, percebe muito bem que homem é Charles.

Aqui fico pensando: quais são as percepções distorcidas no romance? Emma não percebe quem é Rodolphe, percebe um pouco melhor quem é Leon. Parece que Homais, esse interessantíssimo personagem, esse sim percebe bem as coisas. Ele pode ser considerado o representante desta ordem burguesa contra a qual se bate a subjetividade inflada de Emma. Mas eu apostaria em L’Heureux, o vendedor, como o representante da ordem burguesa.

Mas não sou, evidentemente, partidário da leitura de que Emma é o bem e a ordem burguesa o mal. Não. Até porque os sonhos de Emma não são frontalmente hostis à ordem burguesa como muitas vezes se diz. Ela quer belos vestidos, chapéus, novidades; enfim, ela quer também aquilo que a ordem burguesa oferece. Mas ela quer mais. E esse mais que ela quer, eu diria que é perfeitamente compatível com a ordem burguesa. A oposição é menos entre o maldito capitalismo e os bem-aventurados sonhadores. Entre as nobres almas, românticas, de um lado, e a mesquinharia pecuniária da sociedade capitalista. O conflito que se está a retratar me parece básico. É o conflito entre desejo e realidade.

Em suma, o meu ponto é que seria possível a felicidade de Emma dentro da ordem burguesa. Ela se suicida e o culpado não é L’Heureux cobrando suas dívidas. De todo modo, eu fico me perguntando: se Emma vivesse em Paris, se ela conseguisse, em vez de dois estúpidos amantes e um palerma de marido, um homem rico, sedutor, se ela se envolvesse com um Rodolphe menos superficial, se conhecesse Leon antes de Charles (e se Leon fosse mais maduro, menos pobre), Emma não seria feliz?

8 comentários:

? disse...

Adoro Flaubert!!! E Madame Bovary é significante em minha vida!!

La liberté guidant le peuple disse...

Bom, li Madame Bovary uma única vez e senti verdadeira ojeriza por Emma Bovary, mas achei que a leitura do livro valeu a pena. Nunca entendi muito bem o porquê. Conversei com outras pessoas que o leram também, e todas dizem ter simpatizado com a personagem, alegando exatamente o que você escreveu em seu texto como sendo o comentário mais difundido sobre o livro: "Emma representa a oposição do indivíduo com suas nobres aspirações diante da ordem burguesa de seu tempo". Como eu disse antes, li o romance uma única vez e tinha um certo receio de dizer, diante das pessoas que tinham estudado a obra com mais cuidado do que eu e que viam em Emma Bovary uma espécie de "lutadora", digamos assim, que eu achava a personagem ingênua. Achei interessante sua opinião sobre o que seria o cerne do romance de Flaubert: "O conflito que se está a retratar me parece básico. É o conflito entre desejo e realidade.". E concordo com você: Emma deseja algo que não pode ter. O que não seria um problema (afinal de contas, sonhar não custa nada e nos ajuda a contuar a vida) não fosse o fato de ela não se dar conta de que ela não pode ter o que ela quer na situação em que se encontra e pelos meios que emprega. Mas ainda assim acho que o romance merece uma releitura da minha parte e um novo momento de reflexão.

Aguinaldo Pavão disse...

Obrigado pelo comentário, La liberté. Confesso que gostaria de saber quem é você.

La liberté guidant le peuple disse...

Sou Mariane.

Aguinaldo Pavão disse...

Oi Mariane.
Poderia ter sido mais informativa, não acha? De todo modo obrigado. Se quiser use meu e-mail para me dizer quem você é.

Anônimo disse...

Olá! Me chamo Luciana.
Li seu texto sobre Madame Bovary e achei interessante sua posição acerca do "posicionamento" de Emma Bovary diante do adultério. Sou fascinada por essa obra do Flaubert e no momento estudo sobre a mesma.
Gostei do que você fala sobre Emma "...o conflito entre desejo e realidade." E, pensando sobre sua pergunta: se Emma seria feliz morando em Paris e conhecendo as pessoas certas? Acho que sim. O que falta à Sra. Bovary é poder econômico para realizar seus desejos e assim completar-se, ser a mulher exemplar, sem precisar do adultério para "distrair-se."
Verdadeiramente, Emma é o retrato do "querer e não poder". Dou razão ao adultério da personagem pelas condições finaceiras e, também, pela fraqueza do marido, pois a própria personagem diz "detesto os hérois comuns e os sentimentos temperados como se encontram na natureza." E é a sua realidade!

Aguinaldo Pavão disse...

Oi Luciana.
Você também poderia ter sido mais informativa sobre tua identidade.
Muito obrigado pela visita e comentário.

Anônimo disse...

Olá Aguinaldo!
Sou Luciana Ribeiro. Moro na Cidade de Goiás - Go. Sou estudante do 4.ano de Letras e como disse sou fascinada pelo romance Madame Bovary. Estava procurando artigos e comentários acerca do livro e encontrei esse blog.