03 fevereiro 2008

É ético estudar o cérebro dos criminosos?

Artigo publicado hoje na Folha de Londrina. Abaixo, versão ampliada

Neurocientistas e geneticistas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da PUC-RS pretendem mapear o cérebro de 50 adolescentes homicidas. Eles ambicionam investigar as possíveis causas biológicas da violência juvenil. Essa iniciativa deveria ser louvada por todos aqueles que amam a verdade. Porém, ela recebeu uma forte reação contrária de muitos setores da sociedade e do Conselho Regional de Psicologia do RS. Eles pretendem impedir a realização da pesquisa.

O documento do CRP-RS traz essa pérola: “Acreditamos que a questão criminal na contemporaneidade deva ser tratada na sua complexidade, sendo impossível chegar a certezas absolutas, objetivas e observáveis, tanto química quanto biologicamente, sobre a subjetividade humana, através da utilização de métodos exclusivos das ciências naturais a fim de produzir ‘verdades’ unilaterais para algo que é de outra ordem”

Mas quem acredita em certeza absoluta? E que história é essa de que os métodos da ciência natural produzem verdades unilaterais? Esses psicólogos estão duelando com moinhos de vento.
É preciso dizer que a pesquisa não fere a ética. Essa pesquisa não afronta a liberdade das pessoas, não viola a dignidade moral de ninguém.

Por que algumas pessoas são assassinas? Essa pergunta não deve ser respondida ideologicamente. Isso parece óbvio. Se há um interesse genuíno pela verdade, então a pergunta deverá suscitar uma investigação criteriosa. Os resultados dessa investigação jamais serão peremptórios e terminativos, pois não é essa a natureza do saber científico. Porém, certamente os seus resultados ajudarão a compreender melhor a natureza da violência. Há teses que fazem remontar a violência aos condicionamentos sociais. Essas teorias presumivelmente têm algumas evidências favoráveis, mas talvez se vejam fortemente abaladas com o resultado de outras pesquisas. E assim tem de ser. Talvez tenhamos de aceitar a hipótese científica que afirma que há elementos genéticos na violência. Se esse for o caso, isto é, se essa for a melhor hipótese encontrada, então deveremos tentar olhar as coisas de um modo diferente. Ao menos, não mais poderemos afirmar como evidente que a sociedade é que é no fundo criminosa, e não os indivíduos, como alguns pseudo-sociológos afirmam.

Por certo haverá alguma discriminação se a hipótese da existência de causas biológicas obtiver forte corroboração empírica. Por que a sociedade deixaria de discriminar pessoas com alta probabilidade de cometerem assassinatos? Parece-me razoável que sejam discriminadas. Isso não significa que deverão ser tratadas como ratos, nem que devam ser exterminadas, como alguns chegaram a falar. Mas a vigilância da sociedade sobre elas deverá ser diferente. Por que a sociedade deveria aceitar tranqüilamente em seu meio pessoas com predisposição genética para o homicídio?

Só posso entender tais reações contrárias à pesquisa como censura injustificável à investigação científica. Com que direito alguém pode impedir uma pesquisa acadêmica? Se há sincero desejo de buscar a verdade, pesquisas – desde que não firam princípios morais - devem ser criticadas, jamais impedidas. As pessoas que pretendem impedir a pesquisa estão certas de que não há qualquer fator biológico nas práticas homicidas? Ora, se estão certas disso – como também poderão muitos estar ainda convencidos de que o Sol gira em torno da Terra – qual seria o problema do prosseguimento da pesquisa? Certamente a pesquisa iria chegar à conclusão de que não existe qualquer base biológica para a violência. E se chegasse a essa conclusão deveria ser criticada pois não teria sido bem feita. Afinal, é o Sol que gira em torno da Terra, não é? Só que seria saudável não penarmos mais na Inquisição se alguém quiser investigar se é verdade mesmo que Sol gira em torno da Terra.

2 comentários:

Anônimo disse...

Olá Aguinaldo, como vai?

Eu conheço esse tipo de psicólogos que citou em suas considerações. Certamente são os mesmos que, em nome de bandeiras que nem eles próprios entendem bem, militam com unhas e dentes na luta anti-manicomial, por exemplo. Ora, o que impulsionara a luta anti-manicomial? Práticas indevidas, desumanas, aplicadas abusiva e indiscriminadamente pelos psiquiatras e outros responsáveis, mesmo em sujeitos que sequer deveriam estar num manicômio – maconheiros, baderneiros, etc. Por conta disso, o que foi feito? Um movimento para ‘libertar as vítimas desta crueldade’. O problema é que nisso acabaram fechando os hospitais psiquiátricos, e ‘libertando’ não só os que lá não deveriam estar, mas todo mundo! O que deveria ter sido feito? Em minha opinião, deveriam ter fiscalizado tais práticas indevidas, punido seus agentes e mantido os hospitais psiquiátricos abertos, com práticas médicas pertinentes oferecidas apenas àqueles que delas extrairiam algum ganho – o que se espera, enfim, de qualquer hospital.

Esta postura vista na luta anti-manicomial parece assemelhar-se ao que seu comentário traz á tona: por não ponderarem razoavelmente a situação, ou por temerem possíveis abusos desta instituição – refiro-me agora ao laboratório de neurologia – tomam a atitude radical de impedir que a pesquisa aconteça – o que, a meu ver, configura uma decisão desprovida de boa justificativa. Se os psicólogos temem os abusos que podem advir desta pesquisa da UFRS e da PUC/RS, cuidem para que apenas os abusos sejam eliminados, e não a pesquisa. Em vez de naufragá-la, tais psicólogos deveriam participar dela, ou ao menos mostrarem-se atentos e predispostos a avaliar seus resultados.

Não há nenhum motivo razoável para temer o que possa vir desta pesquisa, desde que o que quer que venha esteja aberto a questões, críticas, acréscimos, contribuições, retificações ou mesmo refutação. Com isso quero dizer que os pesquisadores devem ter muito claro exatamente o que você colocou em seu texto: que qualquer saber advindo desta pesquisa não será A verdade, e que o fato deles terem ao seu lado o peso da cientificidade que a sociedade lhes confere não torna tal saber inatingível a possíveis ataques. E claro, que esta abertura a questões não se limite apenas a outros neurocientistas; afinal, também não há motivos para temerem ou repudiarem de antemão intervenções de um psicanalista, por exemplo. Ou há? Bem, se houver, certamente teremos que reconhecer que nesta história não só os tais psicólogos estão agindo de forma cientificamente indevida.

A questão que você coloca (Por que algumas pessoas são assassinas?) é perturbadora, e o fato de não haver uma resposta satisfatória a ela justifica sim, a meu ver, qualquer pesquisa, seja ela empreendida por neurocientistas, sociólogos ou psicanalistas. Sinceramente, não acho que tal pesquisa possa fazer-nos avançar nesta pergunta, e, tomando por base outras pesquisas semelhantes que já tive conhecimento, posso já antever as questões que a colocarão em dificuldades. Ora, então que seja realizada a pesquisa! E que outros profissionais a questionem! E que tais questões sirvam para os próprios pesquisadores aprimorarem seus métodos, e assim sucessivamente. E caso aconteça, como disse, de encontrarem de fato elementos genéticos na determinação da violência, que se tomem providências razoáveis, tais como as que deveriam ter sido tomadas em relação aos esquizofrênicos que foram lançados temerariamente à encantadora ‘reabilitação no convívio social’ pela luta anti-manicomial – aliás, há também aqueles que defendem a tese da determinação genética na esquizofrenia.

Não venho aqui apostar numa comunhão feliz entre pesquisadores das áreas biológicas e humanas, pois há certamente um limite neste diálogo. Mas o fato de haver um limite não significa que não possamos explorá-lo. De minha parte, acho que o diálogo pode ser frutífero para todos, desde que a pesquisa e o saber de cada um sejam considerados com seriedade e rigor. Por isso, torço para que tal empreendimento científico seja levado adiante, e desejo, se assim ocorrer, ter acesso aos resultados.

Perdoe-me a delonga!
Um grande abraço!
Daniel Maireno

Anônimo disse...

..... em respeito à "delonga" ... hehe... digo somente obrigado aos "belos textos", vindos de sua sabedoria gentil, podendo avaliar pequenas coisas do meu blog infâme... tipo "querido diário" ....hehe... com um pequeno toque de intímo e reflexão, por vezes democrática, no entanto, se constitui apenas num querer falar à toa, num demonstrar-me apenas, de resto... de todo territóro que há, da vasta percepção geográfica... digo apenas que aí estamos, virtualmente nos comunicando e cervejas e teses que nos sustentem.... fora nossso cotidianiano... por vezes cruel, por vezes infâme...
E como diria Kant: hehe... "pau que nasce torto, nunca se indireita..."....
Um beijo e obrigada pela visita...
Daniela.