O filme não me agradou. O que há de novo? O que o filme traz? Um tal de João Guilherme Estrela (Selton Mello), um jovem babaca de classe média, cocainômano e traficante. Uma família irresponsável, que tolera o filho (uma criança) destruir um aparelho de televisão. Um retrato do verdadeiro inferno que são as prisões no Brasil. Isso tudo torna o filme monótono e supérfluo. É notável que algumas pessoas digam que o filme tem o mérito de chamar a atenção para o fato de que também na classe média podem ser encontrados casos de pessoas envolvidas com o tráfico, que isso não acontece apenas com os socialmente marginalizados, que os pais devem ficar atentos a essa realidade. Puxa, os pais precisam desse filme para tal descoberta?
É bem verdade que algumas partes dos discursos da juíza e do réu são interessantes. O réu diz, em profunda contradição com o que filme até então mostrara, que não sabia o lado do que era legal e ilegal, que foi “conduzido” pelo desejo de consumir cocaína e ter dinheiro para consumir mais. As coisas aconteceram. Quer dizer que ele não é um sujeito responsável por suas ações? Ele quer passar a idéia de que é um elemento passivo. Um mero elo numa cadeia causal. Comovente, não?
Vou poupá-los de repetir aqui minha opinião sobre a legalização total das drogas. O filme, infelizmente, em nenhum momento discute isso. A propósito, o filme é dez vezes inferior ao Tropa de Elite, este sim um grande filme.
Pareceu-me patético o filme querer, ao final, defender a tese do sucesso da segunda chance, do êxito em recuperar as pessoas. Ora, o filme não demonstrou nada disso. O camarada ficou preso em dois infernos. Depois de livre optou por uma atividade legal (produtor musical). Isso prova o sucesso da segunda chance? Ele estava perdido no caminho do crime e foi recuperado para a tranqüilidade da vida de um homem cumpridor das leis. Ora, ora. Isso é recuperação? Quem foi o agente dessa recuperação? A meu ver o camarada continuará sendo a mesma pessoa que era, talvez um pouco menos idiota.
2 comentários:
Aguinaldo, eu gostei bastante do filme. Talvez porque eu tenha ido assistir sem muita expectativa e me surpreendi. O fato de ser uma história real desperta em mim um intresse maior porque eu gosto de ver como as pessoas se livram das enroscadas em que se metem. Acho que o único responsável pela recuperação dele foi ele mesmo. E isso só aconteceu porque lhe foi imposto um limite pelo Estado - já que o pai dele não foi capaz disso. Se ele nunca fosse pego, provavelmente continuaria no crime - e ia morrer logo de tanta droga. E acredito que o cara só conseguiu mudar porque tem uma estrutura interna que lhe permitiu avaliar a vida que levava e fazer outras opções. E eu gostei bastante dos diálogos - uns muito engraçados. Um abraço
Carina.
Eu penso que você está certa. Podemos falar numa "estrutura interna" capaz de interpretar situações limites e servir de móbil para certas mudanças de comportamento. Ok. Acontece que isso não me parece ser exatamente o que o filme quis passar. Veja que a capacidade de avaliar as conseqüências da ação poderia ser acionada por outras situações limites, não necessariamente pela ação do Estado. Ademais – e esse é o meu ponto, o qual acho não ter ficado claro - o Estado não recuperou ninguém. Talvez até tivesse estragado ainda mais o camarada, não fosse a "estrutura interna" que você fala.
Abraço.
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