22 abril 2007

Ética e pirataria


Artigo publicado na Folha de Londrina deste domingo

Recente pesquisa da Fundação Instituto de Administração revela que o Brasil ocupa a quarta posição no ranking dois maiores mercados de produtos pirateados do mundo. A pesquisa também revela que 35, 2 % dos brasileiros sempre compram produtos piratas.
Deve-se notar, inicialmente, que a discussão sobre a pirataria, por si só, é muito localizada. Precisamos adotar uma perspectiva mais geral. A pirataria deve ser encarada como um dos casos em que o valor da legalidade é menosprezado. Ao lado da pirataria temos a corrupção, a sonegação de impostos, o comportamento irregular no trânsito, enfim vários outros casos em que o querido e amado eu se impõe à revelia da necessária obediência às normas da convivência social.
Por que obedecemos a uma lei? Grosseiramente, duas respostas podem ser dadas. Primeiro temos de considerar a ação fiscalizadora e punitiva do Estado. Poucos discordarão que a principal função do Estado é garantir o cumprimento das leis. Não é razoável esperar que, espontaneamente, todos os indivíduos ajam com correção em suas interações sociais. Sendo assim, o Estado é necessário. Daí ser legítimo que ele monopolize o uso da força.
Contudo, o Estado não tem o atributo divino da onisciência. Ele não pode ver tudo. Um Estado não é um ser divino, é uma criação humana. Portanto, não é suficiente para a vida social à adesão a normas baseada simplesmente no medo das sanções estatais.
É preciso, pois, além da ação do Estado, a interiorização da regra. Com efeito, não bastam limites externos ao possível desregramento em nossas ações, precisamos de limites internos. A interiorização das regras do convívio social é indispensável.
O que percebemos em nosso país? Não precisa ser um professor de filosofia ou um sociólogo para reconhecer que nós brasileiros somos tolerantes com a ilegalidade. Alguém se sente moralmente culpado por ter um software instalado em seu computador que não é original, ou seja, nos censuramos moralmente por usarmos o Windows pirata?
Ainda com respeito ao Estado, mais uma vez direi o trivial: é débil a ação fiscalizadora e punitiva do Estado, e um Estado que fica com mais de um terço do PIB! É evidente que a ineficiência do Estado nesse ponto é talvez a principal causa que leva as pessoas a não obedecerem às leis. Por certo, a ilegalidade funciona em nosso país como um incentivo. Em nosso meio, a ilegalidade é mais vantajosa. Se o contra-incentivo à ilegalidade - que seria o reconhecimento de que ela é menos vantajosa que o comportamento dentro da legalidade - conta menos na ponderação das conseqüências da ação, a tendência natural é que as pessoas se sintam estimuladas a não respeitarem as leis. A probabilidade de uma ação ilegal não ser punida é um convite à sua prática. Isso é trivial.

3 comentários:

Unknown disse...

Chega a parecer gozação, mas moramos em uma cidade em que a ilegalidade é amparada pelo poder público e ganha os tais "shoppings populares". Aliás, se o Brasil é um campeão da pirataria, Londrina é sua capital neste quesito, portanto, estamos em uma posição especialmente vergonhosa (vai montar uma barraquinha na rua para vender CD pirata em Maringá para ver o que acontece).

E o pior é que não se trata, como as autoridades locais querem fazer parecer, de simplesmente fazer vista grossa para o trabalhador informal, como se quem vendesse pirataria fosse um coitado, porém municiado com um belo computador, gravador de mídia e internet banda larga em casa. Ora, ora, todo mundo sabe que o fornecedor é o crime organizado, portanto, ao apoiar o "coitadinho", nossa prefeitura e nossa polícia estão é cooperando com o financiamento do crime.

Agora, mudando um pouco o enfoque da discussão, podemos levar em consideração aquela forma de pirataria que não implica em nenhum tipo de comércio ou lucro, como, por exemplo, o compartilhamento de músicas na internet, refletindo sobre a possibilidade/necessidade de uma reforma das leis. Parece-me que este tipo de comportamento está tornando (ou já tornou) evidente a necessidade de redefinirmos a aplicação do conceito de propriedade em nossa época. Tanto é que mesmo o presidente da Apple já declarou pensar que os arquivos digitais com músicas não deviam mais ser protegidos contra cópias.

Penso que o que esteja em jogo aqui seja o fato de que não se poder mais lutar contra a distribuição irrestrita desse tipo de arquivo. Acontece então que nos vêm à mente o que Kant dizia sobre a propriedade: ela vai até onde alcançam os canhões do proprietário; como bem expressou Aylton em palestra recente.

Ora, simplesmente, os canhões da indústria fonográfica não têm mais alcance algum. Querer ter direito à propriedade de uma música é mais ou menos como pretender a posse de um terreno em marte. O futuro (logo ali ou já aqui) são os programas e sites em que as pessoas terão livre acesso ao entretenimento enquanto são torpedeadas com propagandas. As leis precisam se adequar a isso e, para ser sincera, minha consciência não tem pesado quando coloco meus fones de ouvido. Não me sinto roubando, me considero usando o que não pode mais ser considerado propriedade de alguém. Sem contar os infindáveis benefícios potenciais que esta revolução em curso pode trazer para a arte, livrando-a da perspectiva de lucro das gravadoras. Mas isto já é outra conversa...
Abraços,
Andrea

Aguinaldo Pavão disse...

Concordo contigo, Andréa. Somente não entendo qual a razão da reserva quanto ao lucro da produtoras. Como você disse, essa é uma outra conversa, mas fiquei curioso. Abraço.

Unknown disse...

Meu raciocínio é o seguinte. O grosso do lucro do artista vem dos shows. O lucro da venda de CDs é, sobretudo, das gravadoras, certo? Agora, a partir do momento que este lucro é diluído, qual será o interesse de uma gravadora em manufaturar coisas como RBD, por exemplo? Claro que este fenômeno em específico mostra que ainda podem faturar colocando a marca deles em produtos que variam de chinelo à pasta de dente. Mas é um retorno bem mais complicado. Gosto de pensar que, um dia, as gravadoras vão simplesmente falir e o artista distribuirá sua música diretamente pela internet, tendo muito mais liberdade artística. Do mesmo jeito, gosto de imaginar que os blogs, como este, são um presságio do fim do poder da mídia profissional. Sonhos não têm propriedade intelectual e também não custam nada, né? rsrsrs
Abraços