17 outubro 2022

Debate: 3 x 2


LULA: Eu vou te dar uma novidade. Eu vou criar o Ministério dos Povos Originários. [...].
BOLSONARO: Quanto mais ministério, melhor, não é?

Eu queria mais coisas assim, mas melhor. Por exemplo: Bolsonaro: “Que maravilha, vejam bem” (pausa, ênfase, depois olhos nos olhos de Lula. Parecia difícil para Bolsonaro encarar o Lula). “Mais um ministério, por que não? Você gosta de criar ministérios, não é. É bom pra turma”. E não me interessa se isso viesse de Lula ou Bolsonaro, pois sou o espectador que torce para que os dois  pugilistas caiam juntos num nocaute recíproco simultâneo.

Quem ganhou? A turminha da Jovem Pan vai dizer que Bolsonaro ganhou. A turminha (majoritária) igualmente nauseabunda do UOL e Globo News vai dizer que foi o Lula. Eu digo: foi o Lula. Reivindico uma posição privilegiada ao meu olhar. Eu não torço para nenhum dos dois. 

Lula venceu o primeiro bloco, talvez por 2 ou 3 a 0. Estava mais solto, com certa leveza na chamada linguagem não verbal. Contra Bolsonaro pesavam duas coisas cruciais: o tema e a aparente falta de autoconfiança. A pandemia é um assunto que Bolsonaro dificilmente poderia ter alguma vantagem. Em termos objetivos, impossível ter alguma vantagem. Se ele tivesse algum talento retórico, uma maior presença de espírito, ele poderia até enrolar e dar uma vitória mais apertada para Lula, mas não. Bolsonaro começou muito mal.

Ele melhorou ao longo do debate (por isso falo em 3 x 2). O tema do petrolão foi o momento em que ele se saiu melhor. Convenhamos que seria difícil Lula ter vantagem nesse tópico. De todo modo, o que ficou para mim foi um início muito inseguro de Bolsonaro. Acho que o vídeo sobre "pintou um clima" estava pesando na mente dele. Bom, ele perdeu o debate, mas foi uma derrota de 3 X 2. A parte sobre amizade de Lula com ditadores também foi boa para Bolsonaro. Inclusive, Bolsonaro, se fosse um pouco mais esperto, teria simplesmente perguntado: “é amigo ou não? Sim, ou não?” Deveria fazer pose física interrogativa, tipo “e daí, confessa meu filho” (e pausa, e olhos nos olhos). Nisso Lula, especialmente no primeiro bloco, foi muito bem. Soube impor suas questões e Bolsonaro, tontinho, não conseguia sair do tema que só dava vantagens para Lula. Além disso, que dureza, capitão, que corpo mais pesado, que rigidez nos movimentos.

A citação que fiz acima sobre criação do Ministério dos Povos Originários mostra que nem Lula e nem Bolsonaro são bons debatedores, eles não têm verve, não têm manha nas ironias e nas ênfases. Bolsonaro é ainda pior que Lula. Na verdade, foi um duelo de dois intelectos medíocres. Acho que não é difícil concordar com a ideia de que, por exemplo, um Ciro Gomes, por mais intragável e equivocado que seja, é intelectualmente superior a Lula e Bolsonaro. (Falar em superioridade intelectual é algo que incomoda muita gente porque diz muito sobre os limites que a natureza fixou para nós e temos o mau hábito mental de nos revoltarmos contra os caprichos da natureza. Muitos inclusive acham que o simples fato de nascermos diferentes é um escândalo que merece a acusação de injustiça). 

O debate foi entre duas potências equivalentes em pobreza intelectual. Mas foi divertido, não deu sono, então está ok. E voltemos a Sêneca.