- Diga, Tarrou, por que se preocupa com isso?
- Não sei. Talvez por causa da moral.
- Qual delas?
- A compreensão.
(Camus. A peste)
Propor a compreensão pode parecer uma sugestão pouco atraente para momentos de urgência, de atitudes, de comportamentos que deixem clara nossa briosa condição de seres sociais. Lendo A peste talvez se possa admitir que são coisas perfeitamente conciliáveis a moderação e tolerância nos julgamentos, características de quem busca a compreensão, e o engajamento prático em determinadas situações.
É notável que essa conciliação no romance esteja claramente retratada nas personagens Rieux e Tarrou, sobretudo em Rieux, o protagonista, justamente um médico, um ser da ação. Acho que Camus quer mesmo chamar a atenção do moralizador, desse sujeitinho e de suas velozes condenações. (Para mim cabe como crítica, hoje, ao carinha que dirige seu olhar fulminante do alto de seu recém adquirido fanatismo sanitário). Por certo, Camus não se volta contra quem avalia, julga e age com uma bússola moral clara diante do flagelo – isto é, clara nos contornos largos, pois nos detalhes penso que não há outra coisa a não ser a casuística que dá veemência às almas autoritárias.
Li que “as pessoas se dividem entre heróis e bandidos em tempos trágicos como esse”. Considero tal declaração uma imbecilidade profunda (quem escreveu isso atende pelo nome de Pondé). Sou mais, muito mais - um milhão de vezes mais - Camus.
Se é verdade que os homens seguem modelos e exemplos chamados heróis, se é absolutamente necessário haver um deles nesta história, o narrador indica o herói insignificante, humilde, que apenas tinha um pouco de bondade no coração, e um ideal aparentemente ridículo. Isso dará à verdade o que lhe pertence, à soma de dois e dois o total de quatro, e ao heroísmo o lugar secundário que deve ocupar, depois, não antes, da generosa exigência da felicidade. E dará também a esta crônica o seu caráter, que deve ser o de uma relação feita com sentimentos razoáveis, isto é, nem ostensivamente maus nem glorificadores à feia maneira de espetáculo.As almas empestadas somos todos nós, claro, sempre assim, a doença não do corpo, mas da alma, da mente. O remédio que tenho usado é evitar cair na tentação da verborragia, da aquisição do diploma de infectologista obtido na faculdade “Diploma em uma semana”. Mas preciso compreender que as coisas não são assim, não são assim comigo. Preciso compreender melhor a mim mesmo, ser tolerante comigo mesmo, sem deixar de tentar reprimir minha índole de juiz sumário do comportamento alheio.
Antes de terminar com talvez a mais bela passagem de A peste, vou informar os números (notas de 0 a 10) do “Instituto minha mente” sobre o desempenho de algumas figuras diante das adversidades do atual momento (esse instituto nunca julga eticamente, pois não faz avaliação dos caracteres das pessoas, avalia apenas suas performances públicas, suas ações).
- Bolsonaro: 0
- Mandetta: 5,2
- Doria: 5,8
- Ratinho Jr (governador PR): 5,7
- Belinati (prefeito Londrina): 5,7
No começo e no fim de um flagelo sempre se faz um pouco de retórica. No primeiro caso não se perdeu o hábito, e no segundo ele se fixou. É na desgraça que a gente se habitua à verdade, isto é, ao silêncio. Esperemos.[* citei A peste aqui sempre na infiel e interessante tradução de Graciliano Ramos]
