Porém, dia desses, me lembrei das ajuizadas palavras do sujeito e pensei: parece semelhante a tal “prece da serenidade”.
Concedei-nos Senhor, a serenidade necessária
Para aceitar as coisas que não podemos modificar
Coragem para modificar aquelas que podemos
E sabedoria para reconhecer as diferenças.
Mas é claro, só com sabedoria se tem o discernimento para reconhecer a diferença entre o que se pode mudar e o que não se pode. Porque não é fácil saber o que está ao nosso alcance.
Minha mente cansada gostaria de saber do que depende esse tesouro, essa pérola, esse talismã. Será da vontade? Do intelecto? Da experiência? De tudo junto?
Da vontade, a força. Ok. Do intelecto, o discernimento, a sagacidade. Bah, muito bem. Da experiência, o conteúdo sem o qual tudo parece vazio e só vemos trevas. E se nossas experiências são pobres, como ficamos? Se tenho um ânimo potente e um entendimento penetrante, mas uma vida virginal, provavelmente estarei a léguas da sabedoria. Será? Talvez não. Terei a sabedoria adequada à minha vida. (No fundo, acho que essa sabedoriazinha adequada ao círculo estreito de nossas miseráveis existências é apenas prudência, o que já seria uma grande coisa).
Entretanto não basta vontade, entendimento e experiência, seja ela pobre ou rica. Seria preciso ter a prece atendida. Não posso rogar a um senhor que não acredito existir (essa é minha situação). Posso, porém, rogar ao acaso, à fortuna. De todo modo, as coisas parecem decepcionantes, pois a sabedoria equivaleria a uma dádiva.
Vou ter de interromper o assunto por aqui. Preciso praticar a sabedoria que não tenho com Helena e Alice agora. Deixo vocês com o Montaigne.
Mas acaso Teofrasto, filósofo tão escrupuloso, tão modesto, tão sensato, não foi forçado pela razão a ousar dizer este verso latinizado por Cícero: Nossa vida é governada pela fortuna, não pela sabedoria.