João Pereira Coutinho (“Para evitar doutrinação, filosofia só deve ser estudada aos 30 anos", FSP de 13/12/2016) apresenta uma interessante ideia, inspirada em Platão, sobre o estudo da filosofia, tema que tem me ocupado a mente nos últimos tempos de minha obscura existência. Às vezes, tenho a impressão que o consumo de literatura filosófica deveria ser contraindicado para algumas pessoas. A contraindicação seria uma mera exortação filantrópica, não uma política do Estado como sugere ironicamente Coutinho.
Eu, porém, me abstenho desses aconselhamentos. Que cada um leia o que achar que deve ler, que se perca, que fique ainda mais enterrado em sua nerdice existencial, que se encontre quiçá, que fale merda, que ofereça ao mundo o espetáculo da sua insanidade, assim como ofereço o meu.
Esse tema muitas vezes me ocorre também quando penso na inutilidade de falar de Montaigne para algumas pessoas. Elas poderão achar interessante o que Montaigne disse, mas elas não têm estofo biográfico para mergulhar nessas águas. Nó máximo, elas poderiam molhar seus delicados pezinhos. E é isso que ocorre com frequência. O sujeitinho lê alguma coisa, isto é, molha de leve o pezinho, mas acredita ter feito um prodigioso mergulho. Ora, ora... É preciso, como diz Coutinho, e para mim isso vale especialmente quando se trata da leitura de certos filósofos, é preciso, antes, ter “sofrido algumas cicatrizes fundamentais que só a idade permite”. Eu trocaria a palavra idade por tempo. Não interessa a idade, mas o que a pessoa viveu. Conheço leitorzinhos de 50 que não viveram nada, praticamente nada além de terem feito centenas de navegações nas páginas de seus comentadorezinhos, navegações realizadas em seus bem protegidos quartos de estudo. Por certo, é difícil encontrar alguém com 25 anos que fale com a virilidade própria de quem comunica algo que promana de suas veias. Sim, é difícil. Embora não diga tudo, visto que nada diz tudo, a idade diz muito. O sujeitinho precisa, antes, ter vivido “grandes paixões”, ter sofrido “grandes perdas”. Além disso, seguindo a ótima proposta de Coutinho, tem de ter sentido “a necessidade básica de ganhar a vida e pagar as contas”. Mais: “o confronto pessoal com a coragem e a covardia, a bondade e o ressentimento. A doença –sua ou dos outros. A consciência plena da mortalidade”.
