15 fevereiro 2015

Querida ética

“Você votou no Beto Richa, então você é responsável pelos atos do governador”. Hum ... Eu não votei no Beto Richa (se tivesse ocorrido segundo turno, votaria). Agora, não consigo ver como as pessoas que votaram no querido governador são responsáveis pelas ações dele. Melhor, talvez isso valha para aqueles que sabiam o que ele iria fazer. Mas e quem foi enganado? “Ah, mas são todos uns safados". Opa, opa ... e você é a sumidade ética do cosmos? 

Eu prefiro dizer algo contra o intelecto dos eleitores, e das pessoas em geral, do que me pronunciar contra o caráter deles. Já fiz bastante isso (ando muito arrependido) e continuo fazendo em mesas de bar. Transtornado, grito: “é um fêla da puta, vagabundo, pilantrinha, mau-caráter”. Mas quando minhas emoções se tornam mais filosóficas, isto é, mais calmas, mais plácidas, eu tendo a ver o ridículo dessa minha acribia. Melhor apostar na ignorância do interlocutor do que na sua má-fé. Refiro-me ao interlocutor imaginário que talvez me leia ou me ouça, não ao que está próximo de mim, ao que é candidato a ingressar em meu círculo de amizades, ou que já faz parte desse círculo (cada vez menor e melhor, ahahhahh).

Nem quem votou no Richa é moralmente responsável por seus atos, nem quem votou na Dilma é responsável pelos atos dela. Claro, claro, alguns dos que votaram são. Eles sabiam o que foi feito e o que será feito, eles têm interesses comuns e tal. 

O tombo é alto bonequinha. Melhor ficar aqui embaixo.

Quando penso nisso sou levado (por que cargas d’agua?) a imaginar a seguinte situação. Um camaradinha diz para outro camaradinha. - Olha, acho que você deveria fazer o que estou te dizendo. O outro responde.  – Não vou fazer. Já vislumbrei todos os cenários possíveis. Ademais, como eu tenho ética, eu não vou fazer o que você está propondo. 

Precisaria o segundo camaradinha invocar a ética? Claro que não. Ele não vai ser julgado por seu discurso autoglorificador, mas por suas ações. O que me incomoda é o uso da palavra ética. “Eu sou ético, eles não são. Eu tenho ética, eles não têm”. Ui! Eu preferiria algo como: “não me sentiria confortável fazendo isso”. Até aceito um “acho errado, não vou fazer”. Agora, essa mania de sou ético, blábláblá. Vai se fuder.

Como posso saber que sou ético? O duende não mandou mal nessa passagem.
Acontece por vezes na verdade que, apesar do mais agudo exame de consciência, não possamos encontrar nada, fora do motivo moral do dever, que pudesse ser suficientemente forte para nos impelir a tal ou tal boa ação ou a tal grande sacrifício. Mas daqui não se pode concluir com segurança que não tenha sido um impulso secreto de amor-próprio, oculto sob a simples capa daquela ideia, a verdadeira causa determinante da vontade. (Kant, Fundamentação)

Não precisamos aceitar o pacote inteiro proposto pelo nanico punheteiro de  Königsberg. Basta a ideia de que seria salutar certo desconfiômetro em relação às nossas próprias motivações.

Notem, eu não estou criticando eticamente as pessoas que se dizem éticas, mas apenas fazendo uma censura intelectual. Acho que elas são ingênuas, inocentes, têm visão curta sobre a fauna humana. Precisariam praticar mais autoconhecimento. Ou, mais cedo ou mais tarde (podem apostar), elas vão cair do cavalo, vão abraçar o jacaré. Elas acabarão se enforcando com suas próprias palavras. Isso também deve acontecer comigo, mas, amiguinhos, eu tenho tentado ser um homem melhor (intelectualmente melhor), eu tenho me esforçado tanto ...

Sugestão: burro no lugar de mau-caráter (pois o teu também não é grande coisa). Ops, já ia cair na tentação de criticar eticamente as pessoas. Maldição.

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