"O mais proveitoso e natural exercício de nosso espírito é, a meu ver, a conversação.
[...]
As contradições dos julgamentos não me ofendem nem me alteram, apenas me despertam e me exercitam. Fugimos da correção; deveríamos oferecer-nos e nos expormos a ela, principalmente quando vem na forma de conversação, e não de aula. [...] Eu toleraria ser contestado rudemente pelos meus amigos. ‘És um tolo, estás delirando’. Aprecio que entre homens de brio nos expressemos corajosamente, que as palavras vão aonde vai o pensamento. Precisamos fortalecer o ouvido e endurecê-lo contra esta fragilidade do tom cerimonioso das palavras. Aprecio uma convivência e familiaridades fortes e viris, uma amizade feita de aspereza e energia, que se desenvolva como o amor, com mordidas e arranhões. Ela não é suficientemente vigorosa e generosa se não for provocativa, se for civilizada e artificial, se evitar o confronto e tiver um comportamento contrafeito".
(Montaigne. Ensaios, III: 8)
A cada dia mais encantado com Montaigne. Por que será?
2 comentários:
Aguinaldo, que texto interessante; gosto mais da conversa também - olhando nos olhos e sentindo a tensão das ideias no tom da voz, na gesticulação, no deboche, na respiração ofegante e enfim, na presença e no calor dos pensamentos; mas, na academia, uma boa conversa é blá blá, somente; Que pena!
Greice.
Concordo contigo. Contudo, felizmente, a academia permite que conheçamos (algumas poucas) pessoas interessantes com quem podemos, de modo não acadêmico, praticar a arte da conversação.
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