... e sem aquele tremendo acaso eu jamais teria imaginado com que ardor, com que desespero, com que incontrolável avidez um ser humano perdido suga mais uma vez cada rubra gota de vida, e vinte anos depois, longe de todas as demoníacas forças da existência, eu jamais teria entendido como a natureza por vezes se concentra em alguns momentos, grandiosa e fantástica, em calor e frio, morte e vida, encanto e desespero. Aquela noite foi tão plena de luta e diálogo, paixão e ira e ódio, lágrimas de súplica e de embriaguez, que me pareceu durar mil anos, e nós dois, cambaleando abraçados por aquele abismo, ele enlouquecido pelo desejo de morte, eu sem entender nada direito, emergimos desse tumulto mortal transformados, totalmente mudados, com outras ideias e outras emoções.
(Stephan Zweig. 24 horas na vida de uma mulher).
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