Não é engraçado alguém fazer ladainha com a expressão “cultura da morte” e afirmar que “o Espírito Santo precisa agir na vida das pessoas para que elas possam se abrir à boa nova do Evangelho'‘? Vamos admitir a existência dessa tal "cultura da morte". Quer dizer que as pessoas em geral, ou muitas pessoas, um segmento considerável de pessoas estão a cultuar a morte. Difícil engolir, mas tudo bem, não é esse o meu ponto. Se a “cultura da morte”, algo que eles julgam condenável moralmente, tem como agentes causadores os seres humanos, é fácil aceitar que a responsabilidade deve ser reclamada desses agentes.
Agora, é possível - e acho que é isso que o senhor Martins faz - apertar os parafusos. Ou seja, é possível perguntar se esse fechamento à evangelização é a causa última (primeira, na verdade) da "cultura da morte". Em reposta a essa pergunta, os católicos coerentes dirão: não, não é a causa primeira. A causa primeira é a ineficiente ação do Espírito Santo. Claro, aqui, os católicos têm de trocar de barco. (Eu até consigo entender que Deus tenha um filho e que esse filho seja Deus, mas nunca consegui entender por que eles precisam de uma terceira pessoa. Se eu fosse cristão, eu seria defensor da santíssima dualidade). Ok, ok, ok. Vamos admitir que exista um Espírito Santo com o status requerido pela ideia da santíssima trindade. No momento, isso não tem importância.
Mas como entender a frase “o Espírito Santo precisa agir na vida das pessoas para que elas possam se abrir à boa nova do Evangelho'”? Primeiro, deve-se notar que se trata de uma frase inteligentíssima. Com efeito, se o Espírito Santo agisse na vida das pessoas, ele nunca agiria em vista de algo moralmente mau. Se o fechamento à evangelização é um mal, e o Espírito Santo pode abrir o que está fechado, e sendo moralmente bom abrir o que está fechado, então o Espírito Santo, como diz brilhantemente o senhor Martins, precisa agir. Ora, mas por que não age? - Para outro barco, por favor.
“Cultura da morte” parece ser uma expressão que serve de bandeira para essas guerrinhas ideológicas. Ela esclarece o quê? Por acaso a bandeira “cultura da morte” joga luz sobre os valores morais predominantes de nossa cultura? Serão de fato macabros esses valores? No ano passado, a CNBB afirmou que a “cultura da morte [...] leva à perda do sentido da vida, dos valores éticos e direitos naturais, dos quais deriva todo o direito positivo” (Declaração de Aparecida em defesa da vida – fevereiro de 2008). Descontando o erro crasso sobre o direito positivo (não é verdade que ele derive do direito natural, mas sim que ele deveria derivar do direito natural), a declaração à primeira vista é razoável. A "cultura da morte" poderia ser uma expressão luminosa. Ela apontaria para um diagnóstico moral (tanto faz se certo ou errado) em que se constata o crescimento de elementos hostis à vida, como sua privação de sentido e de um norte ético. Mas isso não é satisfatório. O próprio documento oferece a munição necessária para a acusação de sua incoerência. O documento critica o hedonismo com respeito à sexualidade. Ora, como é possível conciliar hedonismo e “cultura da morte”? Percebe-se, sem dificuldade, que o uso da expressão “cultura da morte” tem fins propagandísticos. Além do que, a dicotomia entre “cultura da morte” versus “cultura da vida” é flagrantemente falsa. Há “culturas”, isto é, perspectivas morais que não são nem da vida nem da morte. Também merece destaque a negligência com o fato de que há uma pluralidade de “culturas da vida”, dentre as quais justamente o hedonismo criticado pelos bispos.
Não deixa de ser interessante observar a Igreja Católica Apostólica Romana se posicionar contra a pesquisa de células-tronco embrionárias e criticar a dita “cultura da morte”. Embriões descartados devem restar eternamente congelados, impedindo possíveis pesquisas que poderiam ajudar milhares de pessoas. É claro que para os que têm como lema “crer, obedecer e combater” está tudo certo. Todas as pecinhas abraçadinhas. Por certo, temos de reconhecer que a referência à vida precisa ser qualificada. Mas para quem gosta de bandeiras, basta um brado retumbante.
Copyright © 2009 Aguinaldo Pavão
Londrina - PR
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