A fórmula geral do imperativo categórico reza: “Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que se torne lei universal” . O professor Álvaro Valls interpreta essa fórmula do imperativo categórico afirmando que nela a “questão fundamental” é a de “saber se posso querer que todos façam a mesma coisa” (Da ética à bioética,p. 26). Ora, a meu ver esse não parece ser o caso. Com efeito, Kant não fala em universalização da ação. Parece claro que o que eu devo querer que se torne lei universal é a máxima, não a ação. Como estou sem ânimo para fazer aqui uma contraposição direta e pontual sobre como vejo esse ponto, talvez seja mais cortês citar uma outra leitura (que sequer concordo plenamente). Höffe sustenta que o conceito kantiano de máxima chama a atenção para o fato de que “o agir humano pode ser diverso e, não obstante, ter uma qualidade comum, a do moral ou do não-moral, sem dar ouvidos, de um lado, ao relativismo ético ou, de outro, a um rígido dogmatismo de regras. [...] As máximas indicam apenas o plano geral; para a ação concreta requerem-se., além disso, uma contextualização, processo produtivos de interpretação e de ajuizamento. É a faculdade de julgar moral-prática que efetua esse ajuizamento em conformidade com as máximas” ( Immanuel Kant , p. 205).
Como se vê, estamos diante duas interpretações conflitantes. Qual é a mais aceitável? Qual a mais cuidadosa? Posso prever uma alegação crítica ao modo como estou colocando as coisas. Algumas pessoas mais sensíveis poderiam ficar melindradas e argüir que o livro de Álvaro Valls não tem a mesma pretensão que o livro de Höffe; que Höffe é um especialista de Kant e Álvaro Valls não; que Álvaro Valls apenas pretende fazer uma apresentação introdutória, pensando num público amplo, não especializado em filosofia.
Tudo bem. Vou admitir sem exame que essas alegações tenham procedência. Mas e daí? Quer dizer que tais diferenças de escopos desculpam possíveis erros? O professor do ensino médio pode deturpar Kant mais do que o professor universitário? E um professor de graduação pode deturpar mais do que um professor de mestrado e doutorado? Alguém aceitaria essa conclusão. Por que sermos dóceis apenas porque o propósito era outro?
4 comentários:
Confundir a universalização de máximas com a universalização de ações é um primeiro passo para um erro ainda mais grave: acreditar que o IC avalia a viabilidade prática/empírica das ações. Muita gente, a começar pelo primeiro professor que me falou do IC, faz esta confusão sem se dar conta de que, se fosse assim, nada passaria pelo seu crivo, portanto, ele seria inútil.
Mas há que se ter em conta que o conceito de máxima é mesmo difícil de entender. Para alguns, ele é tão geral que, ao excluir todo tipo de contextualização, se confunde com a máxima fundamental, expressando apenas uma disposição geral de submeter as inclinações à razão pura ou não. Uma interpretação que torna o IC tautológico. Para outros, é tão particular que se confunde com a própria ação, levando ao problema em tela. Enfim, não acho que seja por acaso que eu esteja com dificuldades para me lembrar de comentadores dando exemplos de máximas.
Eu, particularmente, tenho dito aos meus alunos que máximas são as explicações/justificativas que damos a nossas ações quando somos desafiados a tanto: "compareci à aula hoje, porque estava com medo de ser reprovada por falta". Assim, as máximas conferem uma racionalidade mínima às ações, quer dizer, uma ação sob uma máxima é uma ação ao menos minimamente racional, em contraposição ao comportamento impulsivo. Quem explica um comportamento dizendo que "estava fora de si" ou "perdeu a cabeça" está dizendo que não agiu sob nenhuma máxima.
Por outro lado, não é preciso formular primeiro a máxima expressamente para agir depois. Muitas vezes, só ao sermos interpelados, paramos para pensar em nossa máxima. O IC entraria em cena então para avaliar se a máxima apresentada é passível de ser aceita também por sujeitos que não tenham os mesmos fins particulares. Ao me oferecer tal procedimento, ele me permite saber se a máxima que torna racional minhas ações é ela mesma racional até as últimas conseqüências, ou seja, se a razão pura, participando da determinação do meu arbítrio como senhora das inclinações que permiti que me movessem, aprovaria a incorporação daquela máxima. Uma máxima reprovada pelo IC, e ainda incorporada, é o sinal de que o agente, em dado momento, interrompe abruptamente o processo de dar razões para sua conduta.
Abraços
Andrea
Caro Aguinaldo, estou elaborando um trabalho sobre o prolema da seleção artificial e tento dar algumas respostas a partir do imperativo categórico. Mesmo eu já tendo feito um trabalho que envolvia os conceitos chaves da FMC, acabei fazendo uma leitura empírica do imperativo categórico como a Andrea notou ao lê-lo. Tendo isso em vista, acho que independentemente se o sujeito é graduando, mestrando, doutorando ou doutor na área de filosofia ou em qualquer outra área, ele não pode deturpar os conceitos de um filósofo. Caso o faça, ele deve ser corrigido para não mais incorrer no mesmo erro. Isso não é bem uma contribuição. A verdade é que sempre leio o seu blog, mas nunca deixei recado. De todo modo, aqui estou pela primeira vez.
Abraço,
Fabiano.
Andréa.
Tendo a concordar contigo. Comentaristas de Kant, como Paton, Beck e Allison, não têm uma visão substancialmente diferente. A propósito, Allison em Kant’s Theory of Freedom entende que as máximas são regras que “ditam tipos de ações em vez de ações particulares”. Ele compara as máximas com os conceitos, pois elas, assim como os conceitos “são gerais com respeito ao número de possíveis itens [...] que caem sob elas.
Eu não falo em máximas incorporadas. Eu penso que a incorporação é do móbil na máxima. Mas provavelmente eu não tenha entendido bem o que você quis dizer.
Estou passando por uma fase em que minha mente não consegue entender mais o que significa máxima fundamental. De todo modo, eu fico me perguntando se não seria preferível dizer, ao contrario de você que propõe que ela seja "apenas uma disposição geral de submeter as inclinações à razão pura ou não", que a máxima fundamenta precisa ser entendia como princípio mesmo, como produto do arbítrio. “Apenas uma disposição geral” poderia gerar uma confusão entre Gesinnung e máxima fundamental. Mas não sei bem. Preciso que você me oriente nessas coisas.
Abraço
Fabiano.
Obrigado pela visita e comentáro.
Abraço.
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