21 Dezembro 2008

Filosofia ou religião

Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro.(Matheus 6:24)

Schopenhauer no Suplemento 17 do Mundo como Vontade e Representação, intitulado "Sobre a necessidade metafísica da humanidade", assevera: “sem nenhuma dúvida, é o conhecimento das coisas da morte e a consideração da dor e da miséria da vida, que dão o mais forte impulso ao pensamento filosófico e à explicação metafísica do mundo”. Ele pensa que a religião é a metafísica para o povo. A filosofia não poderia ser saboreada por qualquer mente. Agora, o mais interessante é que ele fala que a consciência da morte e das misérias da vida são as molas propulsoras da metafísica, inclusive da plebéia, a religiosa.

Evidentemente, um homem religioso pode ser um bom filósofo da ciência, um bom filósofo da moral. Enfim, é possível pensar numa mente que coloca em seus devidos escaninhos a filosofia e a religião. Agora, se a morte, a consciência da passagem do tempo, o reconhecimento de nossos limites, de nossas angústias, isto é, se a finitude humana é um ponto comum entre filosofia e religião, então será preciso escolher um ou outro escaninho. Vejam bem, estou falando de finitude humana, mas isso não tem nada a ver, ao menos para mim, com Heidegger, nome que nem sei escrever corretamente (tive de dar uma olhada agora nos dois volumes do Ser e Tempo que tenho (que não li e não gostei) para conferir como se escreve). Penso em nossas aflições. Penso na consciência de que morreremos, nós e as pessoas que amamos, nós e os outros que não gostamos, nós e os outros a quem somos indiferentes. Isso incomoda. Woddy Allen (acho que foi ele) disse que em sua lápide tumular deveriam colocar a seguinte inscrição: ele não merecia ter terminado assim. Talvez ninguém ache graça disso. Eu acho.

Há uma contradição (já tratei disso no post A morte). Não queremos a morte, mas também não queremos a eternidade. O que queremos parece ser a salvação. Mas o que a filosofia tem a ver com a salvação? Se pensarmos que salvação, como pretende Luc Ferry, consiste no esforço que empreendemos para escapar, ou conseguirmos conviver, com o medo, a angústia, os perigos e as desgraças da vida, quer dizer, precisamente a tentativa de nos salvarmos de tudo que nos impede de levarmos mos uma vida feliz, plena; como dizia, se entendermos assim a salvação, então a filosofia restará incompatível com a religião. As religiões, ao menos cristianismo, judaísmo, islamismo, têm a reposta. Se sou piedoso, se tenho fé, acredito que a salvação transcende esse vale de lágrimas. Acreditarei que a morte física não é o fim de tudo. Mas e se não tenho fé religiosa?

Alguém poderia dizer. Olha, te dou Epicuro e torço para que faça bom uso: se estou vivo, a morte está ausente, se a morte se torna presente, eu já não estarei mais vivo. Por que me afligir? Sim, mas enquanto ela está ausente eu tenho de viver, eu tenho de tomar decisões, e tudo isso faço com consciência de minha infeliz finitude. A morte está ao meu lado, como se fosse uma sombra. Como viver? Como morrer? Respostas religiosas estão nos livros sagrados, nas palavras abençoadas de líderes religiosos e santos. Mas e quem renunciou à metafísica plebéia?

Filosoficamente, é até possível se chegar a Deus, mas jamais à virgindade da mãe de alguém, jamais à ressurreição dos mortos. Para tal, com efeito, é preciso um salto mortal. Enfim, não dá para servir a dois senhores. Ou servimos à religião, ou servimos à filosofia. A meu ver, uma mentalidade filosófica está inelutavelmente inclinada à incredulidade. Uma mentalidade filosófica interroga-se se é crível que mortos ressuscitem. Uma mentalidade religiosa aceita a ressurreição dos mortos porque confia na autoridade de um líder religioso, de um livro. Em suma, a mentalidade religiosa é a heteronomia do pensar, a filosófica, a autenticamente filosófica é a autonomia do pensar.

E os meus medos, as minhas angústias, a minha insegurança, os meus tormentos passionais? O que fazer da vida se não acredito na salvação que a religião promete? Talvez Luc Ferry tenha razão: “Por não conseguir acreditar num Deus salvador, o filósofo é antes de tudo aquele que pensa que, se conhecermos o mundo, compreendendo a nós mesmos e compreendendo os outros, tanto quanto nossa inteligência o permite, vamos conseguir, pela lucidez e não por uma fé cega, vencer nossos medos”. Embora eu não esteja totalmente certo da correção dessa idéia (especialmente insipirada no estoicismo), ela me parece deveras estimulante. Quero, num outro post, contrapor essa visão a de Hume, no ensaio "O cético".

Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro.

Termino com uma breve oração: Oh Deus meu, oh santa filosofia. Não me canso de dizer: o meu Deus é a filosofia. Não poderei, pois, servir às “riquezas” da religião. Renego com todas as forças esse falso ídolo. É no Deus da filosofia que creio e espero, se salvação houver, que ele me acolha em seus braços, e me console. E que eu seja feliz cultivando a filosofia contra a perniciosa religião. Amém.

13 Dezembro 2008

A direita católica

D. Bertrand de Orleans e Bragança, da "Associação dos Fundadores" (seguidores dos princípios de Plinio Corrêa de Oliveira, idealizador da TFP), afirmou na Folha de São Paulo de hoje: "Somos de direita. Muita gente não se diz de direita porque existe no Brasil uma campanha malévola para dizer que quem é de direita é nazista, embora nazismo e o comunismo sejam verso e reverso da mesma medalha." De acordo com a Folha, para Orleans e Bragança, o objetivo histórico da TFP sempre foi o de lutar contra "toda corrosão que exista do direito de propriedade", como, agora, "as questões quilombola, indígena e ambiental" - além, claro, dos sem-terra.

Se a direita católica fosse apenas isso, eu a consideraria muito coerente e uma boa representante da direita. Acho que o senhor Orleans e Bragança está certo em dizer que nazismo e o comunismo são verso e reverso da mesma medalha. São dois regimes totalitários. Porém, ao passo que o comunismo cai perfeitamente na definição de esquerda, segundo a qual a esquerda tem como ideal a igualdade, o nazismo não encontra abrigo algum numa certa definição de direita, de acordo com a qual a direita tem como fim a liberdade. E sua posição sobre a propriedade me parece primorosa. Até aqui tudo bem.

Acontece que os católicos de direta não querem apenas que o Estado garanta o direito à propriedade, eles também clamam para que o Leviatã impeça, por exemplo, a eutanásia, o casamento de homossexuais, a legalização do consumo e comércio das drogas - e não faz diferença aqui se eles tomam lugar na fila dos seguidores do idealizador da TFP, ou se os adeptos desse liberalismo de dois mil réis fazem pose de não-sectários. Ora, o que esses três impedimentos estatais (sobre homossexuais, drogas e eutanásia) têm a ver com o direito à propriedade? Eles, por acaso, visam a impedir que o direito à propriedade seja exercido? Não. Logo, essa direita católica carcomida (seja ou não TFP) representa muito mal o liberalismo e a luta pela liberdade.

E vejam: seria perfeitamente possível ser católico fervoroso e liberal conseqüente. Bastaria reconhecer que a legítima coação estatal tem um limite muito claro: ela visa a garantir o exercício da liberdade de ação compatível com a liberdade dos outros segundo um princípio universal possível. Isso um católico ardoroso poderia defender. Uma direita libertária precisa assumir a tolerância para com diferentes posições morais. Ora, o nosso papa-hóstias apenas teria de reconhecer que não seria tarefa do Estado impedir que as pessoas do mesmo sexo se unissem, assim como se unem as de sexo diferente, nem tarefa do Estado impedir que as pessoas introduzam no seu corpo a substância que quiserem. Tampouco seria função do Estado impor às pessoas que não desejam mais viver, e não tem como dar cabo desse desejo por conta própria, a continuidade de suas vidas. Ele teria, o papa-hóstias, de reconhecer que para impedir as pessoas de tais atos, por ele considerados errados, seria preciso persuadi-las, não coagi-las por meios estatais. Pronto, assim teríamos um liberal de fato.

Mas esperar isso dos católicos talvez seja esperar demais. Opa, calma lá. Não, pensando bem, talvez não. É um voto de confiança na humanidade esperar que as pessoas sejam coerentes e melhores. E eu confio fanaticamente no progresso moral e intelectual humanidade.

05 Dezembro 2008

A tragédia em Santa Catarina e a bondade divina

Dezenas de mortos. Milhares de desabrigados. Lágrimas vertidas em profusão. Gemidos e gritos de lamento. Santa Catarina viveu dias de desgraça. Sabemos que tragédias análogas acontecem pelo mundo afora. Porém, o fato de ter acontecido aqui no Brasil, num lugar próximo a nós, estimula com mais força nosso natural sentimento de compaixão e, numa aparente provocação às teorias do egoísmo racional, desperta a efetiva solidariedade das pessoas aos atingidos pelo desastre.

Morreram inocentes. Perderam a vida adultos e crianças. Crianças. A morte delas choca mais. Os mortos tinham culpa por alguma coisa? Eles por acaso foram escolhidos por algum Ente Supremo, preocupado em punir a pecadora humanidade na pessoa de catarinenses? O Ente supremo, se existe, sabia que a morte e a desolação atingiriam os catarinenses. Mas Ele ficou na dele. Nada fez para evitar esse mal. Parece ter assistido a tudo impassível. Que pai generoso, hein?

Isso me traz à mente um artigo que escrevi sobre o Tsunami na Ásia no final de 2004. As dimensões da tragédia são, evidentemente, diferentes, mas o desafio à crença numa divindade bondosa é o mesmo.

Abaixo, o artigo que fez Londrina ficar, por mais de um mês, pedindo aos céus para que minha alma queimasse no inferno (não sei como, pois se a alma é imaterial como é que ela poderia pegar fogo?).


TSUNAMI E A BONDADE DE DEUS (*)

Não quero entrar aqui numa discussão técnica sobre a existência de Deus. Sobre essa questão, a posição agnóstica me parece a mais sóbria. Mas não é esse o meu ponto. Gostaria apenas de registrar como é curioso ouvirmos pessoas agradecendo a Deus por não terem sofrido mais com a tragédia que abateu os países asiáticos. Eu penso que seria muito mais razoável, para as pessoas que acreditam na existência de Deus, a atitude de protesto, de acusação à divindade. Padres, pastores, líderes religiosos em geral ensinam que Deus é bondoso. Ora, onde podemos perceber a bondade de Deus nesses acontecimentos?

Vi na televisão uma atriz, que perdeu filha e neta, agradecer a Deus por não ter morrido a sua neta. Isso é espantoso! Parece que as pessoas, numa disposição singularíssima, se dispõem a dar créditos a Deus pelos que sobreviveram e isentá-lo pelos que morreram. Mas qual a lógica dessa posição? Se Deus agiu, com sua ilimitada benevolência, para salvar milhares de pessoas das ondas gigantes, por que Ele não agiu de modo a salvar todos?

Segundo o filósofo grego Epicuro (341-270 a.C.), “Deus ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quiser e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus. Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus. Se nem quer nem pode, é invejoso e impotente: portanto nem sequer é Deus. Se pode e quer, o que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então a existência dos males? Por que razão é que não os impede?”

Se Deus é considerado o Benfeitor Universal, como entender catástrofes que arrastam consigo a vida de crianças, de seres inocentes? É evidente que a Providência Divina sempre estará certa para os espíritos devotos. Contudo, o incômodo, por certo, deve afligir a mente daqueles que cultivam a razão.

É claro que o que aconteceu foi apenas um desastre natural e Deus, se é que ele existe, o que eu duvido muito, nada tem a ver com isso. O problema é quando as pessoas acreditam que Deus teria intervindo para salvar pessoas. Nesse caso, é inevitável nos perguntarmos: por que uma intervenção tão seletiva? Por que não resolver o problema de todos, por que não impedir a morte de milhares de pessoas, por que permitir o sofrimento de milhares de feridos e desabrigados?

Defendo, sem rodeios, a seguinte posição: a ocorrência de tragédias naturais e um Deus bondoso que atue na história são idéias irreconciliáveis. Com a palavra as mentes piedosas.


(*) artigo publicado na Folha de Londrina, em 12 de janeiro de 2005.