Schopenhauer no Suplemento 17 do Mundo como Vontade e Representação, intitulado "Sobre a necessidade metafísica da humanidade", assevera: “sem nenhuma dúvida, é o conhecimento das coisas da morte e a consideração da dor e da miséria da vida, que dão o mais forte impulso ao pensamento filosófico e à explicação metafísica do mundo”. Ele pensa que a religião é a metafísica para o povo. A filosofia não poderia ser saboreada por qualquer mente. Agora, o mais interessante é que ele fala que a consciência da morte e das misérias da vida são as molas propulsoras da metafísica, inclusive da plebéia, a religiosa.Evidentemente, um homem religioso pode ser um bom filósofo da ciência, um bom filósofo da moral. Enfim, é possível pensar numa mente que coloca em seus devidos escaninhos a filosofia e a religião. Agora, se a morte, a consciência da passagem do tempo, o reconhecimento de nossos limites, de nossas angústias, isto é, se a finitude humana é um ponto comum entre filosofia e religião, então será preciso escolher um ou outro escaninho.
Vejam bem, estou falando de finitude humana, mas isso não tem nada a ver, ao menos para mim, com Heidegger, nome que nem sei escrever corretamente (tive de dar uma olhada agora nos dois volumes do Ser e Tempo que tenho (que não li e não gostei) para conferir como se escreve). Penso em nossas aflições. Penso na consciência de que morreremos, nós e as pessoas que amamos, nós e os outros que não gostamos, nós e os outros a quem somos indiferentes. Isso incomoda. Woddy Allen (acho que foi ele) disse que em sua lápide tumular deveriam colocar a seguinte inscrição: ele não merecia ter terminado assim. Talvez ninguém ache graça disso. Eu acho. Há uma contradição (já tratei disso no post A morte). Não queremos a morte, mas também não queremos a eternidade. O que queremos parece ser a salvação. Mas o que a filosofia tem a ver com a salvação? Se pensarmos que salvação, como pretende Luc Ferry, consiste no esforço que empreendemos para escapar, ou conseguirmos conviver, com o medo, a angústia, os perigos e as desgraças da vida, quer dizer, precisamente a tentativa de nos salvarmos de tudo que nos impede de levarmos mos uma vida feliz, plena; como dizia, se entendermos assim a salvação, então a filosofia restará incompatível com a religião. As religiões, ao menos cristianismo, judaísmo, islamismo, têm a reposta. Se sou piedoso, se tenho fé, acredito que a salvação transcende esse vale de lágrimas. Acreditarei que a morte física não é o fim de tudo. Mas e se não tenho fé religiosa?
Alguém poderia dizer. Olha, te dou Epicuro e torço para que faça bom uso: se estou vivo, a morte está ausente, se a morte se torna presente, eu já não estarei mais vivo. Por que me afligir? Sim, mas enquanto ela está ausente eu tenho de viver, eu tenho de tomar decisões, e tudo isso faço com consciência de minha infeliz finitude. A morte está ao meu lado, como se fosse uma sombra. Como viver? Como morrer? Respostas religiosas estão nos livros sagrados, nas palavras abençoadas de líderes religiosos e santos. Mas e quem renunciou à metafísica plebéia?
Filosoficamente, é até possível se chegar a Deus, mas jamais à virgindade da mãe de alguém, jamais à ressurreição dos mortos. Para tal, com efeito, é preciso um salto mortal. Enfim, não dá para servir a dois senhores. Ou servimos à religião, ou servimos à filosofia. A meu ver, uma mentalidade filosófica está inelutavelmente inclinada à incredulidade. Uma mentalidade filosófica interroga-se se é crível que mortos ressuscitem. Uma mentalidade religiosa aceita a ressurreição dos mortos porque confia na autoridade de um líder religioso, de um livro. Em suma, a mentalidade religiosa é a heteronomia do pensar, a filosófica, a autenticamente filosófica é a autonomia do pensar.
E os meus medos, as minhas angústias, a minha insegurança, os meus tormentos passionais? O que fazer da vida se não acredito na salvação que a religião promete? Talvez Luc Ferry tenha razão: “Por não conseguir acreditar num Deus salvador, o filósofo é antes de tudo aquele que pensa que, se conhecermos o mundo, compreendendo a nós mesmos e compreendendo os outros, tanto quanto nossa inteligência o permite, vamos conseguir, pela lucidez e não por uma fé cega, vencer nossos medos”. Embora eu não esteja totalmente certo da correção dessa idéia (especialmente insipirada no estoicismo), ela me parece deveras estimulante. Quero, num outro post, contrapor essa visão a de Hume, no ensaio "O cético".
Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro.
Termino com uma breve oração: Oh Deus meu, oh santa filosofia. Não me canso de dizer: o meu Deus é a filosofia. Não poderei, pois, servir às “riquezas” da religião. Renego com todas as forças esse falso ídolo. É no Deus da filosofia que creio e espero, se salvação houver, que ele me acolha em seus braços, e me console. E que eu seja feliz cultivando a filosofia contra a perniciosa religião. Amém.



